As autoridades restringiram a liberdade de expressão por meio do uso excessivo da força, de prisões e detenções arbitrárias e de ações penais. O uso de força excessiva pela polícia resultou em mortes. Jornalistas enfrentaram crescentes restrições, sendo dois deles julgados e condenados por difamação em razão de artigos críticos que escreveram. Novos despejos forçados foram executados, e o governo não honrou sua promessa de realojar 450 famílias que haviam sido despejadas anteriormente. Prosseguiram as violações contra os direitos humanos de cidadãos congoleses expulsos de Angola.
Um projeto de lei que tipificava os crimes cibernéticos e que foi criticado pela sociedade civil por apresentar riscos à liberdade de expressão e de informação foi retirado da pauta no mês de maio. No entanto, ainda havia preocupação de que o projeto fosse apresentado novamente ou de que suas disposições fossem incorporadas ao novo Código Penal que está sendo revisado.
No decorrer de todo o ano, manifestações contrárias ao governo pediram a renúncia do Presidente. Em setembro, uma manifestação acabou em violência depois que indivíduos suspeitos de pertencerem aos Serviços de Inteligência e Segurança do Estado infiltraram-se na multidão e, segundo informações, cometeram atos de vandalismo contra a propriedade e agrediram diversas pessoas, inclusive jornalistas. Vários manifestantes foram presos.
Em setembro, o governo provincial de Luanda emitiu um regulamento indicando em que áreas poderiam ocorrer reuniões e manifestações. A Praça da Independência, onde se realizou a maioria dos protestos contra o governo durante o ano, foi excluída.
Em junho, o parlamento aprovou uma lei de combate à violência doméstica.
Em julho, o Presidente inaugurou a primeira etapa do projeto Cidade do Kilamba, que compreenderá 20 mil novos apartamentos, 14 escolas, 1 hospital e 12 postos de saúde. No decorrer do ano, outros planos foram anunciados para a construção de moradias populares em várias partes do país.
Em agosto, no aeroporto de Luanda, agentes da imigração recusaram a entrada em Angola de delegados de diversas organizações da sociedade civil que participariam do Fórum da Sociedade Civil da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), programado para acontecer na mesma época da Cúpula dos Chefes de Estado da SADC. Havia sido combinado, anteriormente, que seus vistos seriam concedidos no momento de sua chegada ao aeroporto. Também foi recusada a entrada de dois jornalistas moçambicanos que iriam cobrir a Cúpula e que possuíam vistos válidos.
Em novembro, parlamentares do partido de oposição abandonaram o debate sobre um novo Pacote Legislativo Eleitoral para as eleições gerais de 2012. A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) declarou que as disposições do pacote eram inconstitucionais. Em dezembro, foi aprovada a nova lei orgânica da Comissão Nacional Eleitoral.
Top of pageProsseguiram os despejos forçados, embora em escala menor do que em anos anteriores, e milhares de pessoas ainda corriam o risco de serem despejadas à força. Alguns dos despejos planejados foram suspensos. Milhares de famílias despejadas à força em anos anteriores continuaram sem receber indenização.
Em junho, o governo anunciou que mais de 450 famílias em Luanda, cujas casas haviam sido demolidas entre 2004 e 2006, seriam realojadas a partir de setembro. Até o fim do ano, o processo não havia iniciado.
As demolições programadas no bairro Arco Íris, na área central da cidade de Lubango, foram canceladas em agosto pelo governador da província de Huíla devido às condições inadequadas da área onde aproximadamente 750 famílias seriam reassentadas. Em junho, as famílias receberam ordens para deixar suas casas no prazo de um mês; depois, esse prazo foi estendido por mais um mês. Também receberam a oferta de terra numa área isolada, distante 14 km da cidade.
A polícia conduziu suas funções de modo partidário, especialmente durante algumas das manifestações contrárias ao governo. Para dispersar os manifestantes, os policiais usaram força excessiva, inclusive munição real, cães e sprays irritantes para os olhos, além de efetuarem prisões e detenções arbitrárias.
Houve diversos casos em que policiais, fora de seu horário de serviço, foram acusados de atirar contra pessoas e de matá-las. Até o fim do ano, na maior parte dos casos, os policiais não haviam sido levados à Justiça.
Os jornalistas enfrentaram crescentes restrições. Diversos profissionais foram brevemente detidos ou agredidos fisicamente pela polícia ou por agentes suspeitos de pertencerem aos serviços de segurança, além de terem seus pertences confiscados ou destruídos enquanto faziam a cobertura de manifestações contrárias ao governo. Dois jornalistas receberam sentenças de prisão por suposta difamação.
A liberdade de reunião foi restringida por todo o país. Em algumas circunstâncias, a polícia usou força excessiva, inclusive cães e armas de fogo, para dispersar manifestações, prendendo manifestantes e jornalistas de modo arbitrário. Alguns foram soltos sem acusações poucas horas ou dias depois de serem presos; dezenas de pessoas foram processadas por desobediência ou por resistência à autoridade.
Apesar de a lei com base na qual foram acusados ter sido revogada em dezembro de 2010, 33 integrantes da Comissão do Manifesto Jurídico Sociológico do Protectorado da Lunda Tchokwe (CMJSP-Lunda) permaneceram detidos sem julgamento até março, quando o Tribunal Supremo ordenou que fossem soltos. Eles não receberam qualquer compensação pelo tempo que permaneceram detidos ilegalmente.
Dois outros membros da Comissão, Mário Muamuene e Domingos Capenda, detidos em outubro de 2010, foram sentenciados, em março, a um ano de prisão por rebelião. Embora sua sentença tenha expirado em outubro, eles continuaram encarcerados. Junto com outros cinco presos – Sérgio Augusto, Sebastião Lumani, José Muteba, António Malendeca e Domingos Henrique Samujaia – eles entraram em greve de fome nos meses de março e outubro a fim de protestar contra sua contínua detenção e as precárias condições prisionais.
Top of pageSegundo a organização Comitê Internacional pelo Desenvolvimento dos Povos (Comitato Internazionale per lo Sviluppo dei Populi, CISP), pelo menos 55 mil cidadãos da República Democrática do Congo foram expulsos de Angola durante o ano. Desses, pelo menos 6 mil relataram terem sofrido violência sexual. Ninguém foi responsabilizado pelos abusos dos direitos humanos cometidos durante as expulsões de imigrantes congoleses de Angola nos últimos anos. Após uma visita a Angola em março, a representante especial do secretário-geral da ONU para questões de violência sexual nos conflitos manifestou preocupação com as constantes denúncias de violência sexual contra imigrantes congoleses por parte das forças armadas angolanas durante as expulsões. O ministro angolano das Relações Exteriores negou a veracidade dos relatos. Em novembro, a representante especial apelou aos governos de Angola e da República Democrática do Congo para que tais denúncias fossem investigadas e para que os responsáveis fossem levados à Justiça. Em dezembro, o ministro das Relações Exteriores afirmou que o governo estabeleceria uma ação coordenada com a ONU para a expulsão dos cidadãos estrangeiros do país.
Top of page