Temerosas de um movimento de protesto inspirado nos eventos do Oriente Médio e do norte da África, as autoridades deflagaram, em fevereiro, uma das maiores ondas de repressão a ativistas políticos, defensores dos direitos humanos e ciberativistas desde as manifestações de 1989 na Praça da Paz Celestial. Intensificaram-se as hostilidades, as intimidações, as detenções arbitrárias e ilegais e os desaparecimentos forçados de críticos do governo. A segurança foi exacerbada nas regiões habitadas por minorias étnicas, onde a população protestava contra a discriminação, a repressão e outras violações de seus direitos. As autoridades recrudesceram seus constantes esforços para fazer que todas as práticas religiosas estejam sob o controle do Estado, inclusive com perseguições brutais aos praticantes. O poderio econômico da China em meio à crise financeira mundial aumentou a influência global do país na área dos direitos humanos – geralmente para pior.
A economia chinesa permaneceu relativamente resistente à crise financeira global, provocando temores de que os atores internacionais relutariam em criticar a situação dos direitos humanos no país, uma tendência já evidenciada nos últimos anos. A China tem obtido cada vez mais sucesso em utilizar seu crescente poderio financeiro e político para pressionar outros países a devolverem vários cidadãos chineses de determinadas origens, tais como os uigures, para a China, onde correm o risco de serem julgados de maneira injusta, de serem torturados e de sofrerem outros maus-tratos em detenção, além de outras violações dos direitos humanos.
Top of pageAs autoridades continuaram a abusar do direito penal a fim de suprimir a liberdade de expressão. Para reprimir os chamados protestos de “jasmim”, movimento surgido em fevereiro com inspiração nas rebeliões populares do Oriente Médio e do norte da África, quase 50 pessoas foram presas e outras dezenas foram hostilizadas e intimidadas. O que começou como um apelo anônimo para uma caminhada pacífica de domingo, espalhou-se por um número crescente de cidades como forma de protesto contra a corrupção, a supressão de direitos e a falta de reformas políticas.
Emendas feitas, em março, aos Regulamentos sobre Gestão de Publicações acrescentaram um novo requisito de que as pessoas que publicam materiais na internet ou em redes de informações devem obter a devida licença para isso ou estarão se arriscando a sofrer sanções penais. As autoridades fecharam ou assumiram diretamente o controle de diversos veículos de comunicação que haviam publicado matérias de jornalismo investigativo sobre questões consideradas sensíveis. Segundo informações, as autoridades proibiram o uso de centenas de palavras nas mensagens de texto de celulares, tais como "democracia" e "direitos humanos".
As autoridades continuaram a hostilizar, a intimidar, a processar e a criminalizar ativistas pró-democracia e de direitos humanos. Apoiadores do Partido Democrático da China foram sentenciados a longas penas de prisão.
Aumentou o número de pessoas submetidas a desaparecimentos forçados. Muitas estavam sendo detidas secretamente, tais como o ativista político mongol Hada. Muitas outras permaneciam ou foram postas em prisão domiciliar ilegal. Entre elas, Liu Xia, esposa do ganhador do prêmio Nobel da Paz, Liu Xiaobo, e Zheng Enchong, um advogado de Xangai que trabalha com questões de direito à moradia.
No dia 30 de agosto, as autoridades publicaram uma minuta de emendas ao Código de Processo Penal chinês. Foram as primeiras mudanças propostas desde 1997. Embora o novo código contenha algumas emendas positivas, a revisão propõe legalizar a detenção de indivíduos por um período de até seis meses sem que seus familiares ou amigos sejam notificados. Muitos analistas jurídicos consideram que tal mudança corresponda à legalização dos desaparecimentos forçados. A proibição do uso de provas ilegais, tais como confissões forçadas e outras provas obtidas mediante tortura ou maus-tratos, foram incorporadas à minuta do novo código. Entretanto, a tortura continuou impregnando os locais de detenção, pois as políticas governamentais, tais como aquelas que exigem dos agentes carcerários a "transformação" dos dissidentes religiosos a fim de que estes renunciem a sua fé, fomentam um clima que conduz à prática da tortura.
Os despejos forçados de pessoas das casas e terras onde vivem, sem o devido processo legal e sem qualquer compensação, aumentaram de forma acelerada, envolvendo cada vez mais violência. No dia 21 de janeiro, o Conselho de Estado expediu novos regulamentos sobre a desapropriação de residências nas áreas urbanas. Embora no caminho certo, os regulamentos cobrem apenas os habitantes das áreas urbanas, deixando a maioria da população chinesa desprotegida contra despejos forçados.
Em fevereiro, a Assembleia Popular Nacional da China aprovou a 8ª revisão do Código Penal chinês, eliminando a pena de morte como punição para 13 crimes. Ao mesmo tempo, a revisão incluiu diversos novos crimes passíveis de pena capital e expandiu o escopo de outros. A China continuou a usar a pena de morte de maneira extensiva, inclusive para delitos não violentos, impondo essa pena com base em julgamentos injustos. O número de execuções no país era calculado em milhares. Porém, as estatísticas sobre sentenças de morte e execuções continuavam secretas.
Top of pageAs autoridades perseguiram seu objetivo de fazer que todas as práticas religiosas estivessem sob o controle do Estado, o que inclui a supervisão estatal das doutrinas religiosas, a indicação de líderes religiosos, o registro de grupos religiosos e a construção de locais de culto. Praticantes de religiões proibidas pelo Estado ou que não tinham sanção estatal arriscavam-se a ser hostilizados, detidos, encarcerados e, em alguns casos, perseguidos com violência. Entre as religiões banidas estavam igrejas clandestinas domésticas protestantes e denominações católicas que aceitam a autoridade da Santa Sé. O paradeiro de aproximadamente 40 bispos católicos continuava desconhecido; presumia-se que estivessem em poder das autoridades.
As autoridades continuaram a empreender uma campanha nacional e sistemática, geralmente violenta, contra o Falun Gong, um grupo de práticas espirituais proibido desde 1999 por ser considerado um "culto herético". O governo entrou no segundo ano de uma campanha de três anos que visa a aumentar o índice de "transformação" dos praticantes de Falun Gong. Trata-se de um processo através do qual as pessoas são pressionadas, muitas vezes por meio de torturas mentais e físicas, a renunciarem à crença e à prática de Falun Gong. Os praticantes que se recusavam a renunciar a sua fé corriam o risco de intensificação nos níveis de tortura e de maus-tratos. Para pôr em prática o projeto, as autoridades mantinham centros de detenção ilegais, conhecidos informalmente como "centros de lavagem cerebral". Fontes do Falun Gong informaram que, a cada três dias, um praticante morria sob custódia ou logo após ser libertado. Segundo essas fontes, milhares de praticantes continuavam desaparecidos.
A morte de um pastor de origem mongol chamado Mergen, no dia 10 de maio, por um caminhoneiro chinês de etnia han que trabalhava no transporte de carvão, provocou protestos generalizados em toda a região. O clima já estava tenso devido aos ressentimentos dos pastores locais, os quais consideravam que seus meios de vida estavam sendo ameaçados pela apropriação de terras e pelos danos ambientais que afetavam as criações de animais, provocados pelas empresas mineradoras, muitas das quais pertencentes a chineses han.
As autoridades reforçaram as medidas de segurança por meio de uma sucessão de campanhas de "linha dura" que intensificaram o patrulhamento das ruas nas 24 horas do dia e incluíam a "mobilização da sociedade para a batalha" contra atos que as autoridades alegavam prejudicar a segurança do Estado. Em Urumqi, segundo consta, bairros inteiros foram cercados e só podiam ser acessados pelos postos de controle.
Restrições excessivas ao fluxo de informações para dentro e para fora da Região Autônoma Uigur de Xinjiang (RAUX) ocultavam o destino de centenas de pessoas que haviam sido detidas na esteira da repressão aos protestos de 2009, em Urumqi. Em janeiro, o presidente do Alto Tribunal Popular da RAUX deu andamento aos processos relacionados aos protestos de 2009; porém, as autoridades não forneceram qualquer informação sobre os julgamentos. Familiares de pessoas detidas costumavam não ser informados sobre o destino ou sobre o paradeiro de seus entes queridos, e geralmente tinham muito medo de se comunicar com os que estavam fora da China, temendo retaliações das autoridades.
A liberdade de expressão continuou sendo severamente restringida na RAUX, inclusive por meio da tipificação vaga de crimes tais como "separatismo étnico" e "terrorismo", os quais incluíam a distribuição de materiais ou obras literárias de "conteúdo separatista".
O governo chinês usou pressão econômica e diplomática sobre outros países, como o Cazaquistão, a Malásia, o Paquistão e a Tailândia, a fim de forçá-los a expulsar ou a entregar mais de uma dezena de uigures para as autoridades chinesas. Os uigures devolvidos à China corriam sério risco de sofrerem tortura, detenções arbitrárias e julgamentos injustos, além de, geralmente, serem mantidos incomunicáveis.
Top of pageDe 16 de março até o fim do ano, nas áreas tibetanas da China, 10 monges ou ex-monges e duas monjas atearam fogo ao próprio corpo. Acredita-se que seis deles tenham morrido em consequência dos ferimentos. Ao que parece, os protestos foram uma reação às medidas de segurança cada vez mais punitivas impostas a instituições religiosas e a comunidades laicas da região após os protestos de março de 2008. A primeira autoimolação, de Phuntsok Jarutsang, foi seguida de protestos, prisões em massa (inclusive de 300 monges do monastério de Kirti), desaparecimentos forçados e possíveis homicídios cometidos pelas forças de segurança. Dois tibetanos idosos (um homem e uma mulher) morreram quando os moradores entraram em choque com as forças de segurança para tentar impedir as prisões. Um terceiro homem morreu mais tarde em consequência das lesões que sofreu quando a polícia reprimiu manifestantes em frente a uma delegacia. Pessoas que tinham alguma ligação com os protestos relacionados às imolações foram sentenciadas a penas de prisão entre 3 e 13 anos. Apesar da onda de autoimolações, não houve qualquer sinal de que as autoridades chinesas tivessem a intenção de enfrentar as causas subjacentes aos protestos, ou de que reconhecessem o descontentamento da comunidade tibetana.
Top of pageAs forças de segurança e a polícia empregaram força excessiva contra manifestantes pacíficos.
Durante uma visita de três dias do vice-premiê chinês, Li Keqiang, a Hong Kong, em agosto, a polícia estabeleceu "áreas de segurança cruciais" para manter os manifestantes e a imprensa afastados do dirigente. Legisladores locais e outras pessoas criticaram o uso dessas táticas de linha dura, por comprometerem a liberdade de expressão. Um morador que vestia uma camiseta em memória ao massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, foi arrastado pela polícia.
Em julho, o governo introduziu um projeto de Emenda 2011 à Lei de Imigração. Tratava-se de uma das medidas voltadas a criar um arcabouço legal para lidar com queixas apresentadas com base na Convenção da ONU contra a Tortura.
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