A população civil, principalmente as comunidades pobres das áreas rurais e urbanas, continuou sendo a mais atingida pelo prolongado conflito armado do país. Grupos guerrilheiros, paramilitares e as forças de segurança foram responsáveis por extensos abusos contra os direitos humanos e por violações do direito internacional humanitário, inclusive crimes de guerra. O presidente Juan Manuel Santos, que tomou posse em agosto, declarou que daria prioridade aos direitos humanos e ao combate à impunidade. Em nítido contraste com o governo anterior, ele adotou uma postura menos hostil com relação aos defensores dos direitos humanos. O novo governo apresentou uma legislação sobre reparações para vítimas e restituição de terras, afirmando que a lei beneficiaria as pessoas afetadas por abusos contra os direitos humanos. Porém, tanto as vítimas quanto as organizações de direitos humanos expressaram reservas com relação à legislação, enquanto defensores dos direitos humanos e líderes sociais continuaram sendo ameaçados e mortos. Aqueles cujo trabalho visava à devolução das terras apropriadas indevidamente durante o conflito, principalmente pelos grupos paramilitares, corriam maior perigo. Defensores dos direitos humanos, juízes, advogados, promotores, testemunhas, vítimas e suas famílias que tivessem algum envolvimento com processos criminais por violações de direitos humanos também foram ameaçados e mortos.
Em fevereiro, a Corte Constitucional impediu uma proposta de referendo que poderia ter permitido que o presidente Álvaro Uribe se candidatasse a um terceiro mandato consecutivo.
A campanha que o governo do Presidente Uribe travou para desacreditar a Corte Suprema de Justiça foi em parte motivada pelas investigações feitas pelo tribunal sobre as ligações existentes entre congressistas, como Mario Uribe, primo do presidente, e grupos paramilitares. No entanto, na gestão do Presidente Santos, o relacionamento com a Corte pareceu ter melhorado.
O principal grupo guerrilheiro do país, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), sofreu outro revés significativo em setembro, quando as forças de segurança mataram um de seus líderes históricos, Víctor Julio Suárez Rojas, conhecido como “Mono Jojoy”, durante uma operação militar.
Em 19 de outubro, o Congresso adotou a Convenção sobre Desaparecimentos Forçados da ONU.
Início da páginaAs partes beligerantes não faziam distinção entre civis e combatentes, o que resultou em desalojamentos forçados, homicídios ilegítimos, sequestros e desaparecimentos forçados. Comunidades indígenas, de afrodescendentes e de agricultores, bem como seus líderes, continuaram sendo alvos diretos das partes em conflito. Segundo a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), pelo menos 122 índios foram mortos em 2010.
Em 2010, mais de 280 mil pessoas foram desalojadas à força. Em 2009, haviam sido 286 mil. Entre três e cinco milhões de pessoas foram desalojadas nos últimos 25 anos.
Em novembro, a Defensoria dos Direitos Humanos (Defensor del Pueblo) manifestou preocupação com o aumento no número de massacres em 2010. Paramilitares e narcotraficantes foram considerados os principais responsáveis.
Diversos atentados a bomba em áreas urbanas, alguns dos quais o governo atribuiu às FARC, mataram e feriram civis.
Houve várias decisões judiciais importantes sobre processos criminais relacionados aos direitos humanos.
Entretanto, a maioria dos perpetradores de violações dos direitos humanos continuou a evadir a Justiça. A luta contra a impunidade foi prejudicada por ameaças e assassinatos de pessoas envolvidas em julgamentos referentes a direitos humanos.
Início da páginaO Presidente Santos afirmou que devolver uma parte dos mais de seis milhões de hectares de terras que, no decorrer do conflito, foram indevidamente apropriadas de agricultores e de comunidades indígenas e afrodescendentes seria uma prioridade de sua gestão. Em outubro, o governo anunciou que, até abril de 2012, iria devolver 312 mil hectares de terras para cerca de 130 mil famílias que haviam sido desalojadas. Até o fim de seu mandato de quatro anos, a devolução total prevista seria de dois milhões de hectares. No entanto, esse esforço estava sendo minado pelas ameaças e pelos assassinatos cada vez mais frequentes dos líderes das comunidades desalojadas e das pessoas que tentavam reaver as terras que lhes foram roubadas.
O processo de Justiça e Paz continuou muito aquém das normas internacionais referentes ao direito das vítimas à verdade, à justiça e à reparação, embora algumas informações sobre violações dos direitos humanos tenham vindo à tona. Por meio desse processo, que teve início em 2005, cerca de 10 por cento dos mais de 30 mil paramilitares supostamente desmobilizados puderam se qualificar para redução da pena de prisão em troca da deposição de suas armas, de confissões sobre abusos dos direitos humanos e da devolução das terras roubadas. Os demais se beneficiaram de anistias de facto. Em novembro, porém, a Corte Constitucional rejeitou uma lei aprovada em 2009, que teria confirmado tais anistias para 19 mil desses paramilitares, declarando que a legislação contrariava o direito à verdade, à justiça e à reparação. Em dezembro, o Congresso aprovou uma lei que concedia anistias de facto a esses paramilitares caso eles assinassem um Acordo de Contribuição com a Verdade Histórica e a Reparação.
Em junho, um juiz do processo de Justiça e Paz sentenciou dois paramilitares a oito anos de prisão cada um por violações de direitos humanos. Em dezembro, um terceiro paramilitar recebeu a mesma sentença. Até o fim de 2010, haviam sido essas as únicas sentenças proferidas no âmbito do processo de Justiça e Paz.
Em fevereiro, a Corte Suprema de Justiça se recusou a autorizar novas extradições de paramilitares para os Estados Unidos, pois causava preocupação o fato de que a maioria dos líderes paramilitares extraditados para os EUA em 2008 acusados de tráfico de drogas não estivesse cooperando com o sistema de justiça colombiano em suas investigações sobre violações de direitos humanos.
Início da páginaHouve denúncias de execuções extrajudiciais, mas em quantidade menor do que em anos anteriores. No entanto, continuaram muito lentas as investigações criminais conduzidas pelo Ministério Público sobre mais de 2.300 homicídios desse tipo cometidos desde 1985.
Temia-se que a libertação condicional, em 2010, de dezenas de soldados do exército que teriam participado de execuções extrajudiciais pudesse prejudicar as investigações criminais desses casos.
O sistema de justiça militar continuou a reivindicar competência para julgar alguns dos processos por violações de direitos humanos que implicavam membros das forças de segurança. Muitos desses processos foram arquivados sem que houvesse tentativas sérias de levar os responsáveis a prestarem contas de seus atos. Um novo Código Penal Militar, aprovado em agosto, era ambíguo quanto a execuções extrajudiciais e estupros estarem excluídos da competência militar.
Em setembro, o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos na Colômbia publicou um relatório confirmando a presença de pelo menos 446 corpos não identificados em um cemitério próximo a uma base do exército em Macarena, departamento de Meta. A ONU pediu que uma investigação detalhada fosse conduzida para verificar quantos desses corpos são de vítimas de execuções extrajudiciais. Em 22 de julho, durante uma audiência pública, organizações não-governamentais relataram haver corpos não-identificados no cemitério de La Macarena. Três dias depois, o Presidente Uribe deu a seguinte declaração sobre as ONGs: “O terrorismo [...], embora proponha a paz através de alguns porta-vozes, através de outros porta-vozes vem até aqui em La Macarena para encontrar um modo de desacreditar as forças armadas e de acusá-las de violações dos direitos humanos”.
Algumas das pessoas envolvidas em denunciar as execuções extrajudiciais foram ameaçadas ou mortas.
A Corte Suprema de Justiça continuou a fazer progressos em suas investigações sobre as conexões ilícitas entre políticos e grupos paramilitares. Dezenas de ex-congressistas estavam sendo investigados, sendo que muitos dos quais foram condenados e presos.
No dia 4 de março, a Corte Suprema emitiu uma declaração alertando que assassinatos de membros do Judiciário ameaçavam o Estado de direito. A declaração foi publicada após as denúncias de que vários magistrados que investigavam o escândalo haviam recebido ameaças de morte.
Em setembro, o procurador-geral puniu a senadora Piedad Córdoba com a perda do cargo e a inabilitação política por 18 anos. Ele argumentou que ela havia se excedido em seu papel como mediadora do diálogo com as FARC, que visava a libertar os reféns, ao aconselhar politicamente o grupo guerrilheiro. A senadora negou todas as acusações.
Início da páginaEm janeiro, o Ministério Público acusou sete agentes graduados do serviço civil de informações, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS), de fazer interceptações telefônicas ilegais e de serem afiliados a grupos paramilitares. Enquanto isso, o órgão seguia investigando diversos ex-diretores do DAS e autoridades do governo. Em 2009, a imprensa revelou que o DAS, que funciona sob a autoridade direta do Presidente, estava envolvido, havia anos, em um esquema de grandes proporções para aplicar “truques sujos” contra ativistas de direitos humanos, políticos da oposição, juízes e jornalistas.
Em outubro, o Congresso abriu uma investigação para descobrir qual era o papel do ex-presidente Uribe no escândalo. No início daquele mês, o Ministério Público anunciou sanções disciplinares contra diversas autoridades públicas por sua participação no escândalo, entre elas, três ex-diretores do DAS e o secretário-geral da Presidência do governo Uribe, Bernardo Moreno.
Em outubro e dezembro, dois funcionários graduados do DAS, Jorge Alberto Lagos e Fernando Tabares, foram sentenciados, cada um, a oito anos de prisão por sua participação nesses crimes.
Em novembro, uma das ex-diretoras do DAS que estava sendo investigada, María del Pilar Hurtado, solicitou e recebeu asilo no Panamá, aumentando os temores de que as investigações criminais de autoridades de alto escalão do governo e do DAS poderiam acabar frustradas.
Início da páginaOs paramilitares seguiram matando civis, ameaçando e matando defensores dos direitos humanos e líderes sociais, recrutando crianças e realizando ações de “limpeza social”. Tais grupos continuaram a se expandir, organizando-se de modo mais sofisticado. Em muitas partes do país, prosseguiu a conivência das forças de segurança com os paramilitares.
As FARC e o Exército de Libertação Nacional (ELN) cometeram graves abusos contra os direitos humanos, bem como violações do direito internacional humanitário, inclusive homicídios ilegítimos, tomada de reféns e recrutamento de menores.
As FARC, sobretudo, realizaram ataques indiscriminados que puseram em risco a vida de civis devido ao uso de artefatos explosivos de baixa precisão.
Segundo as estatísticas governamentais, 35 membros das forças de segurança e um civil foram mortos em 2010, sendo que 363 pessoas foram feridas por minas terrestres antipessoais, usadas principalmente pelas FARC.
De acordo com os dados do governo, ocorreram 282 sequestros em 2010, sendo que em 2009 haviam sido 213. A maior parte foi atribuída a gangues criminosas, mas os grupos guerrilheiros foram responsáveis pela maioria dos sequestros ligados ao conflito. Entretanto, a ONG País Libre, a principal organização de apoio a vítimas de sequestro, criticou o órgão governamental responsável por elaborar as estatísticas de sequestro, o Fondelibertad, por afirmar que, em fevereiro, restavam apenas 79 pessoas cativas.
Diversos soldados e policiais que se encontravam nas mãos das FARC foram libertados.
Início da páginaDefensores dos direitos humanos, sindicalistas e lideranças sociais continuaram sendo ameaçados e mortos, principalmente por grupos paramilitares. Em 2010, pelo menos 14 defensores dos direitos humanos foram assassinados. A Associação dos Sindicatos Nacionais informou que 51 pessoas afiliadas a sindicatos foram mortas durante o ano.
Defensores dos direitos humanos e ativistas sociais acusados de ligações com guerrilheiros continuaram a ser processados criminalmente, muitas vezes com base apenas nas declarações de informantes.
Início da páginaTodas as partes no conflito submeteram as mulheres a abusos sexuais e a outras formas de violência baseada em gênero.
Mulheres ativistas que trabalham com mulheres desalojadas foram ameaçadas e mortas.
Em 2010, os Estados Unidos alocaram aproximadamente 667 milhões de dólares para a ajuda militar e não-militar à Colômbia. Esse montante incluía os 508,2 milhões do projeto de lei para financiamento de Operações Exteriores e de Estado. Desses, 256 milhões foram alocados às forças de segurança, sendo que aproximadamente 100 milhões estavam destinados às forças armadas. O pagamento de 30 por cento desses 100 milhões estava condicionado ao cumprimento de determinadas exigências de direitos humanos por parte das autoridades colombianas. Em setembro, as autoridades dos EUA determinaram que o governo da Colômbia havia feito progressos significativos na melhora da situação de direitos humanos do país e liberou cerca de 30 milhões a título de assistência para a segurança.
Em agosto, a Corte Constitucional decidiu que o acordo assinado em 2009 para permitir que os militares dos EUA usassem sete bases militares na Colômbia não poderia ser implementado até que fosse submetido ao Congresso e aprovado, devendo depois passar pela aprovação da própria Corte.
Início da páginaO informe do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) sobre a Colômbia, publicado em março, afirmava que o maior desafio em 2010 seria avançar na implementação efetiva das recomendações da ONU, inclusive “todas aquelas formuladas anteriormente pelo Alto Comissariado que ainda estão pendentes”.
Em outubro, o governo renovou por mais três anos o mandato do escritório do ACNUDH na Colômbia.
Diversos relatores especiais da ONU – inclusive sobre execuções sumárias e extrajudiciais, sobre os povos indígenas e sobre a independência de magistrados e advogados – apresentaram relatórios sobre a Colômbia ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. A Colômbia também passou pela apreciação do Comitê da ONU sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, do Comitê sobre os Direitos da Criança e do Comitê de Direitos Humanos. O perito independente da ONU sobre questões das minorias visitou a Colômbia em fevereiro.
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