O governo continuou a afirmar seu compromisso com os direitos humanos. Apesar disso, houve poucas melhoras tangíveis na situação geral desses direitos. Os civis – especialmente os povos indígenas e as comunidades camponesas e afrodescendentes, os defensores dos direitos humanos, os líderes comunitários e os sindicalistas – continuaram pagando com seus direitos humanos o maior custo pelo prolongado conflito armado interno. A Lei de Vítimas e Restituição de Terras, assinada em junho pelo presidente Juan Manuel Santos, foi um passo importante para o reconhecimento dos direitos de muitas das vítimas do conflito e para a devolução de alguns dos milhões de hectares de terras que foram roubados, geralmente com violência, de seus proprietários de direito. Porém, as constantes ameaças e os assassinatos de pessoas que trabalham pela restituição dessas terras podem prejudicar a execução da lei. O governo comprometeu-se a acabar com a impunidade para violações dos direitos humanos, e alguns casos emblemáticos apresentaram progressos. Porém, as autoridades não asseguraram que a maioria dos responsáveis, principalmente os que cometeram crimes sexuais contra mulheres e meninas, fossem levados à Justiça. Temia-se que os planos do governo de ampliar o escopo da competência militar para o julgamento de delitos pudessem frustrar os poucos avanços conquistados na luta contra a impunidade. Mais de 40 candidatos foram assassinados durante as eleições locais e regionais de outubro, um número significativamente maior do que o das eleições de 2007. Diversos candidatos que se suspeita estarem intimamente vinculados a políticos que foram condenados ou que estão sendo investigados criminalmente por supostas ligações ilegais com paramilitares conseguiram se eleger, inclusive como governadores de departamentos.
Grupos guerrilheiros, paramilitares e as forças de segurança continuaram sendo responsáveis por crimes de direito internacional, tais como homicídios ilegais, desaparecimentos forçados, sequestros e desalojamentos forçados. Os moradores das áreas rurais, principalmente os povos indígenas e as comunidades camponesas e afrodescendentes, corriam os maiores riscos, assim como as pessoas que vivem em situação de pobreza nas áreas urbanas, os defensores dos direitos humanos e os sindicalistas.
Segundo a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), 111 índios foram mortos nos primeiros 11 meses de 2011.
Aproximadamente 259 mil pessoas foram desalojadas à força em 2011, em comparação às 280 mil desalojadas em 2010.
No dia 2 de novembro, o governo expediu o Decreto 4.100, criando o Sistema Nacional de Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário. De acordo com o governo, esse marco jurídico iria melhorar a coordenação e a implementação das políticas públicas de direitos humanos.
Top of pageA Lei de Vítimas e Restituição de Terras reconhece a existência de um conflito armado e os direitos das vítimas. Prevê reparações para alguns sobreviventes de abusos dos direitos humanos, inclusive daqueles perpetrados por agentes do Estado. Contudo, temia-se que muitas vítimas fossem excluídas da possibilidade de ingressar com ações indenizatórias e que grandes porções de terras roubadas talvez não fossem devolvidas aos seus devidos donos. Temia-se ainda que as pessoas que regressassem fossem obrigadas a ceder o controle de suas terras aos indivíduos que as haviam desalojado à força.
Lideranças das comunidades desalojadas e pessoas que buscavam a devolução de terras roubadas continuaram sendo mortas e ameaçadas.
No primeiro semestre de 2011, foram relatadas pelo menos 17 execuções extrajudiciais cometidas por membros das forças de segurança, em que as vítimas foram falsamente apresentadas como "guerrilheiros mortos em combate". Embora tenha havido um aumento com relação a 2010, esse número foi bem mais baixo do que em 2008, quando 200 mortes desse tipo foram registradas.
A maior parte das milhares de execuções extrajudiciais efetuadas no curso do conflito, inclusive as que estavam sendo investigadas pelo Ministério Público, continuaram sem solução.
No fim do ano, o Congresso ainda estudava a adoção de medidas para ampliar o papel da justiça militar nas investigações de violações dos direitos humanos que tiveram o envolvimento de forças de segurança. O sistema de justiça militar tem regularmente encerrado tais investigações sem qualquer tentativa séria de fazer que os responsáveis prestem contas. Caso aprovada, tal medida contradiria as normas internacionais de direitos humanos, que afirmam que violações dos direitos humanos devem ser investigadas exclusivamente por tribunais civis.
Além disso, o Congresso também estava debatendo a adoção de medidas para permitir que abusadores dos direitos humanos, como os membros das forças de segurança, se beneficiassem de anistias de facto.
Top of pageAs FARC e o Exército de Libertação Nacional (ELN) cometeram sérios abusos dos direitos humanos e violações graves e repetidas do direito internacional humanitário, tais como homicídios ilegais, tomada de reféns, desalojamentos forçados e recrutamento de menores.
Segundo dados do governo, nos primeiros 10 meses do ano, minas terrestres antipessoais plantadas, principalmente, pelas FARC, mataram 49 membros das forças de segurança e 20 civis, deixando centenas de outros civis feridos.
De acordo com as estatísticas oficiais, 305 sequestros foram registrados em 2011, comparados a 282 em 2010. Embora a maioria tenha sido atribuída a grupos criminosos, os grupos guerrilheiros foram responsáveis pela maior parte dos sequestros ligados ao conflito.
Em 4 de novembro, o comandante das FARC Guillermo León Sáenz Vargas (conhecido como “Alfonso Cano”) foi morto pelas forças de segurança durante uma operação militar.
Top of pageApesar de sua suposta desmobilização, os grupos paramilitares, rotulados pelo governo como "bandos criminosos" (Bacrim), continuaram aumentando sua presença e influência territorial. Em fevereiro, o então ministro do Interior e da Justiça, Germán Vargas Lleras, reconheceu o controle territorial dos Bacrim em muitas partes do país, tanto nas zonas rurais quanto nas urbanas. Relatórios indicam um número crescente de paramilitares operando nas áreas com forte presença das forças de segurança.
Os paramilitares, muitas vezes com a conivência ou consentimento das forças de segurança, continuaram a cometer sérias violações dos direitos humanos, tais como assassinatos e desaparecimentos forçados, bem como operações de limpeza social em áreas urbanas carentes. Suas vítimas eram principalmente sindicalistas, defensores dos direitos humanos e líderes comunitários, assim como membros ou representantes de grupos indígenas ou comunidades afrodescendentes e camponesas.
O Processo de Justiça e Paz pouco avançou. De acordo com o processo, introduzido em 2005, cerca de 10 por cento dos mais de 30 mil paramilitares que, supostamente, teriam sido desmobilizados, podem se qualificar para beneficiarem-se de sentenças reduzidas de prisão, caso confessem as violações de direitos humanos que cometeram. Os outros 90 por cento foram efetivamente anistiados. Até o fim do ano, somente 10 paramilitares haviam sido condenados com base no processo, a maioria dos quais estava recorrendo das condenações.
Em fevereiro, a Corte Constitucional decidiu pela constitucionalidade da Lei 1424, que previa a concessão de anistias de facto a milhares de paramilitares de baixa hierarquia que, supostamente, estariam desmobilizados, caso eles assinassem o chamado Acordo de Contribuição Histórica à Verdade e à Reparação.
Top of pageEm 31 de outubro, o governo extinguiu o serviço de informações civil, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS). O DAS operava sob a autoridade direta do Presidente e esteve implicado em um escândalo envolvendo “táticas sujas”, tais como ameaças, assassinatos, vigilância ilegal, escutas telefônicas e perseguição a ativistas de direitos humanos, políticos, juízes e jornalistas, sobretudo durante o governo do presidente Álvaro Uribe Vélez (2002-2010). O órgão foi substituído pela Direção Nacional de Inteligência.
Diversos funcionários graduados do DAS ainda estavam sendo investigados por seu envolvimento no escândalo; outros já haviam sido sentenciados. Porém, outra ex-diretora do DAS, María del Pilar Hurtado, continuou a evadir a justiça. Em 2010, ela recebeu asilo no Panamá.
O trabalho dos ativistas de direitos humanos continuou a ser prejudicado por assassinatos, ameaças, processos judiciais e roubo de informações sobre certos casos.
Mais de 45 defensores dos direitos humanos e líderes comunitários, muitos dos quais trabalhavam sobre questões de terras, e pelo menos 29 sindicalistas, foram mortos em 2011.
Em março, em resposta a uma onda de assassinatos de defensores dos direitos humanos, o escritório colombiano do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos apelou ao governo para que reavaliasse profundamente seus programas de proteção à integridade física. Em 31 de outubro, o governo expediu o Decreto 4065, unificando todos os programas de proteção do Ministério do Interior sob o controle de um único órgão, a Unidade Nacional de Proteção.
Top of pageHouve certo progresso em um número limitado de casos de direitos humanos.
A impunidade, na vasta maioria dos casos, persistia e era exacerbada por ameaças e assassinatos de testemunhas, de advogados, de promotores e de juízes.
Mulheres defensoras dos direitos humanos e líderes comunitárias, principalmente as que atuavam em questões de terras, foram ameaçadas e mortas.
Organizações de direitos humanos que atuam em favor das mulheres, sobretudo as que trabalham com mulheres desalojadas e sobreviventes de violência sexual, também foram ameaçadas.
Embora o governo tenha se comprometido a combater a violência sexual praticada contra mulheres e meninas no contexto do conflito, o problema prosseguiu de modo sistemático e disseminado. As decisões da Corte Constitucional sobre a questão, sobretudo o Auto 092 de 2008, foram parcamente acatadas pelo governo. A impunidade para esse tipo de crimes continuou sendo muito mais alta do que para outros tipos de abusos dos direitos humanos. Porém, em dezembro, um paramilitar foi condenado por crimes sexuais referentes ao conflito. Foi a primeira condenação desse tipo no marco do Processo de Justiça e Paz.
Top of pageA assistência dos EUA à Colômbia continuou a diminuir. Em 2011, os EUA alocaram cerca de US$ 562 milhões em ajuda militar e não militar à Colômbia. Esse montante incluía US$ 345 milhões para as forças de segurança, dos quais US$ 50 milhões destinados às forças armadas. O pagamento de 30 por cento desses 50 milhões estava condicionado ao cumprimento de determinadas exigências de direitos humanos por parte das autoridades colombianas. Em setembro de 2011, aproximadamente US$ 20 milhões em fundos de assistência à segurança foram liberados depois que as autoridades estadunidenses determinaram que o governo colombiano havia feito progressos significativos no sentido de melhorar a situação dos direitos humanos.
Em outubro de 2011, o governo dos Estados Unidos ratificou um Acordo de Livre Comércio (FTA) entre a Colômbia e os EUA, apesar da oposição de organizações trabalhistas e de direitos humanos, que manifestaram temor pela segurança de ativistas e lideranças trabalhadoras na Colômbia, bem como com o impacto que o acordo poderia ter sobre pequenos agricultores, povos indígenas e comunidades afrodescendentes.
Top of pageO relatório sobre a Colômbia do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, publicado em fevereiro, reconhecia o "compromisso com os direitos humanos, manifestado pelo governo Santos". Porém, o relatório afirmava que todas as partes no conflito continuavam violando o direito internacional humanitário, e expressou especial preocupação "com os constantes homicídios, ameaças, ataques, roubo de informações, vigilância ilegal e intimidações contra defensores dos direitos humanos e suas organizações".
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