A impunidade para os crimes previstos no direito internacional persistiu na República Democrática do Congo (RDC), embora tenha havido alguma melhora. Forças de segurança do governo e grupos armados cometeram muitas violações de direitos humanos no leste do país. Nove soldados das forças armadas congolesas, incluindo um tenente coronel, foram condenados por crimes contra a humanidade, particularmente estupros, cometidos em 1º de janeiro na cidade de Fizi, em Kivu-Sul. Em fevereiro, eles foram sentenciados a penas de prisão, em um raro exemplo de pronta responsabilização de perpetradores perante a justiça. No entanto, as investigações sobre outros casos de estupros em massa cometidos por membros do exército nacional e por grupos armados estavam paralisadas. As eleições gerais foram maculadas por várias violações de direitos humanos, inclusive mortes ilegais e prisões arbitrárias por parte das forças de segurança. Defensores dos direitos humanos e jornalistas enfrentaram intimidações e restrições de suas liberdades de expressão e de associação.
A residência presidencial e um acampamento militar em Kinshasa foram atacados, em 27 de fevereiro, em uma ação que o governo chamou de “golpe de Estado”. Uma onda de prisões arbitrárias seguiu-se ao ataque, voltada principalmente contra pessoas da província de Equateur.
A segunda eleição presidencial e legislativa realizada na RDC desde sua independência ocorreu em 28 de novembro. Em 5 de janeiro, uma emenda constitucional mudou o sistema de eleições presidenciais, que passou de um processo de dois turnos de votação para um sistema de turno único, no qual vence o candidato com maior número de votos. Tal emenda, somada a problemas logísticos, como atrasos no calendário eleitoral e controvérsias sobre o recadastramento para as eleições, aumentou as tensões entre a coalizão da maioria presidencial e a oposição.
O exército nacional – Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) – seguiu com suas operações militares contra grupos armados estrangeiros nas regiões leste e norte da RDC, dentre os quais estão as Forças Democráticas de Libertação de Ruanda (FDLR), o Exército de Resistência do Senhor (LRA) e as Forças Democráticas Aliadas/Exército Nacional de Libertação do Uganda (ADF/NALU), o que provocou novos desalojamentos de civis. Em janeiro, o exército nacional iniciou a retirada de tropas para treinamento e realocação, como parte de seu processo de reconfiguração. Isso levou à retomada, por parte de grupos armados, de áreas antes controladas pelas FARDC e à deserção de outros grupos recentemente integrados ao exército. As condições de segurança deterioraram-se nas regiões de Kivu-Sul e Kivu-Norte com a intensificação das atividades das FDLR, do grupo Mayi-Mayi Yakutumba e das Forças Nacionais de Libertação do Burundi (FNL). O plano de reconfiguração do exército e o decreto presidencial de 31 de dezembro de 2010 para distribuir postos dentro das FARDC criaram dificuldades adicionais ao processo já falimentar de integração de antigos grupos armados às FARDC.
Em 28 de junho, a resolução 1991 (2011) do Conselho de Segurança da ONU prorrogou até 30 de junho de 2012 o mandato da Missão de Estabilização das Nações Unidas na RDC (MONUSCO). A resolução reiterou que futuras configurações da MONUSCO deveriam ser determinadas com base na evolução das condições de segurança em campo e no alcance de objetivos, tais como a melhoria da capacidade do governo de proteger a população. O mandato incluiu apoio técnico e logístico para as eleições e apoio continuado a um número limitado de operações militares das FARDC.
Top of pageSegundo relatos, grupos armados, incluindo LRA, FDLR, FNL, ADF/NALU e vários grupos Mayi-Mayi, cometeram numerosos abusos de direitos humanos contra a população civil. Tais abusos incluem estupros, assassinatos, saques e sequestros, especialmente na antiga província Orientale e nas de Kivu-Sul e Kivu-Norte. Grupos armados Mayi-Mayi atacaram civis em protesto contra o governo apesar da política governamental de integrar grupos armados nacionais ao exército como forma de promover a cessação dos combates.
Segundo informes, o antigo grupo armado Congresso Nacional pela Defesa do Povo (CNDP), integrado ao exército nacional em 2009, embora mantendo sua autonomia, foi responsável por violações de direitos humanos que incluem mortes ilegais e prisões arbitrárias. Disputas entre o exército e grupos armados pelo controle de áreas de mineração também agravaram as condições de segurança e induziram a novos abusos.
Conforme relatos, em maio, combatentes das FDLR sequestraram 48 pessoas e saquearam várias casas no território de Mwenga, em Kivu-Sul.
Durante todo o ano, o LRA sequestrou civis e os forçou a carregar bens saqueados na antiga província de Orientale. O LRA seguiu apresentando uma séria ameaça à população civil, forçando milhares de pessoas a fugir. Grupos armados também atacaram funcionários de organizações humanitárias em diversas ocasiões.
Top of pageOs períodos que antecederam e se seguiram às eleições foram marcados por homicídios ilegais e por dezenas de prisões arbitrárias por parte das forças de segurança, dentre as quais a Guarda Republicana.
Estupro e outras formas de violência sexual seguem endêmicas, sendo cometidas tanto pelas forças de segurança do governo, incluindo a PNC, como por grupos armados. A violência sexual é, muitas vezes, acompanhada de outras formas de violações de direitos humanos, como saques e tortura. Embora tenham ocorrido alguns julgamentos, a impunidade continuou disseminada, e as vítimas frequentemente foram ameaçadas. Vítimas de estupros e de outros abusos sexuais não têm acesso à assistência e apoio adequados e continuaram a ser estigmatizadas. Homens submetidos a esses abusos são especialmente marginalizados.
Os grupos armados e as FADRC seguiram recrutando e utilizando crianças, especialmente no leste do Congo, apesar de centenas delas terem sido libertadas. Crianças continuaram a ser sequestradas por grupos armados, particularmente o LRA e as FDLR, e usadas como combatentes, espiãs, escravas sexuais ou carregadoras. Embora as FADRC tenham formalmente deixado de recrutar crianças em 2004, nenhum plano de ação foi adotado para afastar as crianças das forças armadas, como exigem as resoluções 1539 (2004) e 1612 (2005) do Conselho de Segurança da ONU.
Top of pageEstima-se que 1,57 milhão de pessoas continuem desalojadas na RDC, dentre as quais 1 milhão está nas regiões de Kivu-Sul e Kivu-Norte. As condições de vida continuavam precárias, tanto nos acampamentos quanto nas comunidades anfitriãs.
Em julho, a RDC, Uganda e o ACNUR, a agência da ONU para os refugiados, firmaram um acordo para a repatriação voluntária de 32 mil congoleses refugiados que vivem em Uganda.
Cidadãos e cidadãs congoleses continuaram a ser expulsos de Angola e enviados de volta à RDC. Segundo informes, algumas dessas pessoas sofreram violações de direitos humanos em Angola, incluindo estupro.
Top of pageTortura e outros maus-tratos foram cometidos por grupos armados e pelas forças de segurança governamentais, inclusive as FADRC, a polícia nacional, a Agência Nacional de Inteligência e a Guarda Republicana. As forças de segurança praticaram com frequência tortura e outros maus-tratos em instalações de detenção, após prisões arbitrárias. Funcionários de ONGs e da ONU continuaram a ter o acesso negado a muitas instalações; celas de detenção secretas e irregulares continuavam em uso.
Em julho, a RDC promulgou uma lei criminalizando a tortura. A implementação desta lei permanece um grande desafio, uma vez que os serviços de segurança continuam a praticar tortura e outros maus-tratos, inclusive em instalações de detenção clandestinas.
Tribunais militares continuaram a sentenciar à morte um grande número de pessoas, incluindo civis. Nenhuma execução foi relatada. Em 23 de junho, quatro policiais foram sentenciados à morte por sequestrarem e assassinarem um destacado defensor de direitos humanos (veja abaixo).
Top of pageO sistema de justiça continuou, de um modo geral, incapaz de assegurar justiça e reparação às vítimas. A impunidade para as violações de direitos humanos e do direito humanitário internacional, sejam do passado ou atuais, continuou generalizada, apesar de alguns julgamentos e condenações. Os suspeitos de crimes previstos na legislação internacional não foram afastados de seus cargos, nem levados à justiça. Falta de recursos, corrupção e interferências política e militar continuaram a paralisar os tribunais em todo o país. Dezenas de civis foram julgados por tribunais militares.
O ministro da Justiça e dos Direitos Humanos submeteu um projeto de lei para instituir um tribunal especial, composto por membros congoleses e estrangeiros, com competência sobre genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O Senado rejeitou o projeto de lei em 22 de agosto.
As investigações iniciadas em outros casos avançaram lentamente.
As investigações judiciais relativas a estupros e abusos sexuais em massa e outras violações de direitos humanos, cometidas por soldados das FADRC nas aldeias de Bushani e Kalambahiro, avançaram pouco.
Top of pageAs prisões seguem carecendo de recursos que assegurem aos detentos condições compatíveis com os padrões mínimos internacionais. Muitos prisioneiros morreram em decorrência de condições precárias de detenção. Instalações deterioradas não permitem a efetiva separação entre mulheres e homens, nem a separação de detentos que aguardam julgamento daqueles já condenados. Fugas da prisão ocorreram em todo o país devido à limitação de recursos e à escassa infraestrutura.
Em 7 de setembro, 963 prisioneiros escaparam da prisão de Kasapa, em Lubumbashi, antiga província de Katanga, após um ataque armado. Entre os fugitivos estava Gédéon Kyungu Mutanga, ex-comandante do grupo Mayi-Mayi, que fora condenado, em março de 2009, por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e terrorismo.
Top of pageForças de segurança governamentais e grupos armados continuaram a atacar e a intimidar defensores dos direitos humanos, inclusive com ameaças de morte e prisões.
As autoridades administrativas e os serviços de segurança impuseram restrições às liberdades de expressão e de associação. As forças de segurança governamentais reprimiram manifestantes com o uso da força, e choques ocorreram entre apoiadores de vários partidos políticos.
Muitos jornalistas foram ameaçados, presos arbitrariamente, processados, intimidados, alertados por autoridades estatais a não noticiar determinados assuntos e, em alguns casos, assassinados em razão do trabalho realizado. Essas violações se intensificaram no contexto das eleições gerais.
Estações de rádio e canais de televisão receberam ordens oficiais de suspensão e suas dependências foram alvo de violência politicamente motivada.
O Tribunal Penal Internacional (TPI) estava prestes a emitir sentença, em janeiro de 2012, no caso de Thomas Lubanga, acusado de crimes de guerra relacionados ao recrutamento e uso de crianças menores de 15 anos para o grupo armado União dos Patriotas Congoleses, em Ituri.