As forças de segurança governamentais utilizaram força excessiva contra manifestantes pacíficos e outros, alguns dos quais foram mortos a tiros. Outros foram presos e torturados. Milhares de pessoas foram detidas; muitas haviam sido presas em anos anteriores e mantidas sem acusação ou julgamento. Tortura e outros maus-tratos continuaram disseminados. Centenas de pessoas foram sentenciadas à morte, muitas mediante julgamentos injustos, e dezenas de prisioneiros foram executados. As forças militares dos EUA também cometeram graves violações de direitos humanos. Grupos armados que fazem oposição ao governo e à presença de tropas estadunidenses continuaram a cometer sérios abusos de direitos humanos. Esses grupos executaram diversos ataques à bomba, alguns suicidas, matando centenas de civis.
Inspirados pelos levantes populares na Tunísia e no Egito, milhares de iraquianos uniram-se em manifestações públicas em Bagdá, em Basra e em outras cidades contra a corrupção, o desemprego e a falta de serviços básicos e a favor de direitos civis e políticos mais amplos. As principais manifestações, ocorridas em todo o Iraque, em 25 de fevereiro, foram dispersadas com violência pelas forças de segurança.
Em 18 de dezembro, os últimos soldados estadunidenses deixaram o Iraque, em cumprimento do Acordo sobre o Status da Força assinado entre os governos dos EUA e do Iraque, em 2008. Uma proposta de que vários milhares de soldados estadunidenses permanecessem no Iraque como instrutores militares fracassou em virtude de questões jurídicas relacionadas a sua imunidade.
Em julho, o Iraque aderiu à Convenção da ONU contra a Tortura.
Top of pageOs grupos armados que fazem oposição ao governo e à presença de forças militares estadunidenses no país continuaram a cometer graves abusos dos direitos humanos, inclusive atentados indiscriminados contra civis e sequestros. Muitos desses atentados foram executados pela Al Qaeda e por seus aliados no Iraque.
Milhares de pessoas permaneceram detidas sem acusação ou julgamento. Em julho, o presidente do Supremo Conselho Judiciário (SCJ) afirmou que havia cerca de 12 mil pessoas detidas provisoriamente, referindo-se apenas àquelas mantidas em instalações controladas pelo Ministério da Justiça. Acredita-se haver muitos outros detidos nas prisões controladas pelo Ministério da Defesa e pelo Ministério do Interior. Muitos não tiveram acesso a advogados nem a familiares.
Em julho, as autoridades estadunidenses transferiram dois meios-irmãos do ex-presidente Saddam Hussain e seu então ministro da Defesa, todos sentenciados à morte, para a custódia iraquiana. Junto com eles, quase 200 outros detidos por supostamente pertencerem a grupos armados. Estes eram os últimos indivíduos que se encontravam presos e detidos sob o controle do exército dos EUA no Iraque. Todos eles permaneceram na prisão de Al Karkh (anteriormente denominada Campo Cropper), próximo do aeroporto internacional de Bagdá.
Top of pageTortura e outros maus-tratos foram práticas generalizadas nas prisões e nos centros de detenção, particularmente naqueles controlados pelo Ministério do Interior e pelo Ministério da Defesa. Os métodos mais usualmente relatados foram suspensão pelos membros por longos períodos, espancamentos com cabos ou mangueiras, choques elétricos, rompimento de membros, asfixia parcial com sacos plásticos e violência sexual, ameaçada ou consumada. A tortura foi utilizada para extrair dos detidos informações e “confissões” que pudessem ser usadas como provas contra eles nos tribunais.
As forças de segurança utilizaram força excessiva em resposta aos protestos antigovernistas ocorridos em Bagdá e em outras cidades, particularmente nos meses de fevereiro e março, por meio de munição real, bombas de efeito sonoro e outras armas, para dispersar manifestantes pacíficos. Pelo menos 20 pessoas foram mortas nos protestos iniciados em fevereiro.
Centenas de pessoas foram sentenciadas à morte. Em julho, o presidente do SCJ declarou que os tribunais haviam imposto 291 sentenças capitais na primeira metade do ano. Em setembro, um porta-voz do SCJ revelou que 735 sentenças de morte haviam sido encaminhadas à Presidência para ratificação, entre janeiro de 2009 e setembro de 2011, das quais 81 haviam sido ratificadas. Segundo o ministro da Justiça, 65 homens e três mulheres foram executados durante o ano.
A maioria das sentenças de morte foi imposta a pessoas condenadas por pertencerem ou por terem envolvimento em ataques promovidos por grupos armados, por sequestro ou por outros crimes violentos. Os julgamentos sistematicamente não atenderam às normas internacionais para julgamentos justos. Os réus geralmente queixaram-se de que as “confissões” aceitas como provas contra eles haviam sido obtidas mediante tortura, enquanto eram mantidos incomunicáveis e interrogados, e que não puderam escolher seus próprios advogados de defesa. Em vários casos, essas “confissões” foram divulgadas na televisão, às vezes antes dos julgamentos, minando o direito de ser considerado inocente até que haja prova em contrário. O governo raramente divulgou informações sobre execuções, especialmente os nomes e os números exatos dos executados.
O Supremo Tribunal Penal Iraquiano continuou a julgar ex-dirigentes do Baath e ex-comandantes do exército ligados ao governo de Saddam Hussain, que foram acusados de crimes de guerra, de crimes contra a humanidade e de outros crimes graves. O tribunal, cuja independência e imparcialidade foram minadas por interferência política, impôs diversas sentenças de morte. Em setembro, o presidente do Supremo Tribunal disse no Parlamento que a corte já não estava operando, uma vez que havia concluído todos os processos criminais que lhe competiam analisar.
Uma nova lei aprovada em agosto, que aparentemente visa à proteção dos direitos de jornalistas, foi criticada como inadequada pelas organizações da imprensa e por jornalistas, que continuaram a enfrentar ameaças e ataques politicamente motivados por parte das forças de segurança, no que parece ser uma orquestração para amordaçar os meios de comunicação. Aqueles que trabalham para veículos independentes ou de oposição foram os alvos preferenciais. Diversos jornalistas foram presos e torturados.
As forças dos EUA estiveram envolvidas em uma série de incidentes nos quais civis foram mortos em circunstâncias suspeitas.
As forças de segurança iraquianas continuaram a pressionar e a usar violência contra residentes do Campo Ashraf, cerca de 60 km ao norte de Bagdá. Rebatizado de Campo Novo Iraque, o local ainda abrigava cerca de 3.250 exilados iranianos, membros e apoiadores da Organização dos Mujahedin do Povo Iraniano, que se opõe ao governo do Irã. Em 8 de abril, as tropas iraquianas adentram no campo, utilizando força totalmente excessiva, inclusive munição real, contra residentes que tentaram resistir. Cerca de 36 moradores – 28 homens e 8 mulheres – foram mortos e mais de 300 ficaram feridos.
Posteriormente, os feridos e outros que se encontravam seriamente enfermos foram impedidos ou enfrentaram obstáculos para deixar o campo a fim de obter tratamento médico especializado.
Funcionários graduados do governo iraquiano insistiram que o campo deveria ser fechado até o final de 2011, levando o ACNUR, a agência da ONU para os refugiados, a solicitar uma prorrogação do prazo para permitir que o órgão entrevistasse os moradores que buscavam registrar-se como refugiados. No final do ano, o governo iraquiano concordou em estender o prazo para abril de 2012, desde que os moradores fossem transferidos para o Campo Liberty, próximo ao aeroporto internacional de Bagdá.
Top of pageA população também realizou manifestações na região do Curdistão, especialmente na cidade de Sulaimaniya, protestando contra a corrupção e pedindo por reformas políticas.
Diversas novas leis foram instituídas. Uma nova lei sobre ONGs simplifica o processo de registro legal, permite às ONGs receberem fundos tanto de fontes locais como de internacionais, reconhece que as ONGs desempenham um papel de monitoramento das instituições governamentais e de acesso à informação, e permite que elas abram sucursais e formem redes. Uma nova lei para combater a violência contra mulheres proíbe uma série de atos de violência no âmbito familiar, exige que as identidades das vítimas sejam protegidas e estabelece um tribunal especial para julgar casos de violência contra mulheres.
As forças de segurança curdas utilizaram força excessiva, inclusive munição real, para reprimir protestos em Sulaimaniya e em Kalar, o que resultou em, pelo menos, seis mortes.
Diversos ativistas pró-democracia, inclusive membros de partidos políticos de oposição, foram detidos e torturados, ou submetidos a outros maus-tratos.
Diversos jornalistas, especialmente aqueles que trabalham para veículos independentes, foram ameaçados, assediados ou atacados, aparentemente por agentes de segurança.