Salmaan Taseer, o destemido governador do Punjab, e Shahbaz Bhatti, ministro para as Minorias (e único membro cristão entre os ministros de Estado), foram assassinados em janeiro e março, respectivamente, em razão de suas críticas às leis de blasfêmia. As forças de segurança continuaram envolvendo-se em violações, inclusive em desaparecimentos forçados, tortura e execuções extrajudiciais, especialmente no Baluquistão e no noroeste do país. Em maio, as forças estadunidenses mataram o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, em uma incursão em seu esconderijo na cidade de Abbottabad, no noroeste paquistanês. Autoridades do governo dos EUA acusaram publicamente o Paquistão de apoiar o Talibã no Afeganistão. O Talibã paquistanês e outros grupos armados mataram civis em ataques intencionais e indiscriminados em todas as regiões do país. Karachi foi tomada por uma onda de assassinatos desencadeada por gangues rivais associadas a distintos grupos étnicos e políticos. Sentenças de morte continuaram a ser pronunciadas, mas não houve execuções. Um ano de sucessivas enchentes causadas pelas monções aumentou o número de desabrigados e os surtos de dengue por todo o país. A escassez crônica de energia provocou protestos violentos na maioria das grandes cidades e reprimiu a atividade econômica. Mulheres e meninas em áreas propensas a conflitos, no noroeste e no Baluquistão, enfrentaram sérias dificuldades de acesso à educação e a serviços de saúde.
A situação de direitos humanos continuou precária, com agentes de segurança e da inteligência frequentemente sendo cúmplices em violações. As autoridades, em geral, não quiseram, ou não conseguiram, proteger mulheres, minorias étnicas e religiosas, jornalistas e outros grupos vulneráveis contra abusos, nem levar os responsáveis à Justiça. As promessas feitas por autoridades federais e provinciais de aprimorar o Estado de direito na província do Baluquistão, arruinada pela violência, tiveram pouco efeito. Elas incluíam maior supervisão sobre a polícia e o grupo paramilitar Corpo de Fronteiras, ampliação do recrutamento de pessoas da etnia balúchi para o serviço civil e maior participação da província no orçamento nacional.
Quase um milhão de pessoas continuaram desalojadas em consequência do persistente conflito entre as forças de segurança e o Talibã paquistanês, enquanto as comunidades que retornaram às regiões reconquistadas dos insurgentes queixaram-se da falta de segurança e de acesso a serviços básicos. Um sistema de justiça paralelo, baseado em uma interpretação estreita da lei islâmica (sharia), estabeleceu-se no distrito de Malakand, apesar da retirada do Talibã paquistanês, criando temores de que suas normas sociais severas venham a ser aplicadas. Em junho, o Presidente Zardari concedeu às forças de segurança do noroeste do país imunidade retrospectiva contra processos judiciais e amplos poderes de detenção e aplicação de penas arbitrárias. Em 14 de agosto, o dia da independência do Paquistão, o presidente aprovou reformas históricas, estendendo o Decreto dos Partidos Políticos de 2002 às Áreas Tribais sob Administração Federal e introduzindo emendas na Regulamentação de Crimes de Fronteira – uma legislação da era colonial britânica que privava os residentes da região de muitos de seus direitos humanos e de garantias constitucionais. As reformas limitaram o poder do Estado de realizar detenções arbitrárias e de aplicar penas coletivas, concedeu às pessoas da região o direito de apelar judicialmente das decisões baseadas na referida regulamentação e permitiu aos partidos políticos operar nas áreas tribais.
Em 9 de junho, o Paquistão ratificou o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo à venda de crianças, prostituição e pornografia infantis. Em setembro, o Paquistão retirou a maioria de suas reservas em relação ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e à Convenção contra a Tortura, mas manteve outras restrições problemáticas que impedem não muçulmanos de se tornarem primeiro-ministro ou presidente e negam às mulheres direitos iguais de herança.
Top of pageAs forças de segurança e de inteligência agiram, em grande medida, com impunidade e foram acusadas de violações que incluem desaparecimentos forçados, tortura e mortes de civis, de jornalistas, de ativistas e de supostos membros de grupos armados em ataques indiscriminados e execuções extrajudiciais.
Os relatos de execuções extrajudiciais foram mais frequentes na província do Baluquistão, bem como no noroeste do país e em Karachi, atormentada pela violência.
O Estado não levou à Justiça os responsáveis por desaparecimentos forçados; a maioria das vítimas continuou desaparecida. Em março, o governo instituiu uma nova Comissão de Inquérito sobre Desaparecimentos Forçados, mas levou seis meses para indicar o ministro reformado da Suprema Corte, Javed Iqbal, para presidi-la. Desde o início dos trabalhos da comissão anterior, em março de 2010, mais de 220 das várias centenas de casos individuais denunciados haviam sido rastreados. Ambas as comissões foram criticadas por não protegerem testemunhas e por conduzirem investigações de forma inadequada, especialmente nos casos em que as forças de segurança do Estado e os serviços de inteligência foram implicados.
O Talibã paquistanês instituiu civis como alvos e realizou ataques indiscriminados usando artefatos explosivos improvisados e homens-bomba. Muitos anciãos tribais foram vítimas de assassinatos seletivos. O Talibã também tentou assassinar uma série de políticos vinculados ao Partido Nacional Awami. Segundo o governo, 246 escolas (59 de meninas e 187 de meninos) foram destruídas e 763 foram danificadas (244 de meninas e 519 de meninos), na província de Khyber Pakhtunkhwa, em decorrência do conflito com o Talibã, privando milhares de crianças do acesso à educação. Ameaças de violência por parte do Talibã paquistanês impuseram severas restrições ao acesso a serviços de saúde, à educação e à participação na vida pública para mulheres e meninas.
Grupos nacionalistas no Baluquistão assassinaram membros de facções rivais, pessoas de etnia punjabi e membros das forças de segurança estatais. Além disso, reivindicaram responsabilidade pelos ataques à infraestrutura de gás e eletricidade, os quais causaram grave escassez de energia na província. Ataques sectários por parte do grupo armado Lashkar-e-Jhangvi e outros a muçulmanos xiitas resultaram em pelo menos 280 mortes e ferimentos.
Karachi vivenciou um surto de violência quando gangues rivais, algumas ligadas a partidos políticos, entraram em conflito em disputa por território, matando 2 mil pessoas. As forças de segurança detiveram centenas de suspeitos, mas a Suprema Corte criticou os partidos políticos por incitarem a violência e criticou as autoridades por omitirem-se em deter muitos perpetradores conhecidos.
Top of pagePelo menos nove jornalistas foram assassinados durante o ano. Profissionais da imprensa foram ameaçados pelas forças de segurança, pelos serviços de inteligência, por partidos políticos e por grupos armados, por produzirem reportagens sobre os mesmos. As autoridades paquistanesas não levaram os responsáveis à Justiça nem proporcionaram proteção adequada aos jornalistas.
Grupos sectários continuaram a ameaçar as minorias ahmadi, cristã, hindu e xiita, bem como os praticantes sunitas moderados. Além disso, esses grupos incitaram a violência contra os que pediam reformas nas leis de blasfêmia vigentes no país. O Estado não impediu os ataques sectários contra minorias religiosas nem levou à Justiça os perpetradores da violência.
O juiz que sentenciou o assassino de Salmaan Taseer à morte foi forçado a esconder-se em razão de ameaças de morte, enquanto os assassinos de Shahbaz Bhatti ainda estavam por ser levados à Justiça. A parlamentar Sherry Rehman retirou da Assembleia Nacional um projeto de lei de reforma da lei de blasfêmia, depois de receber ameaças de morte. Aasia Bibi, uma agricultora cristã sentenciada à morte por blasfêmia, em 2009, continuava detida enquanto tramitava seu recurso da sentença.
Top of pageAs mulheres enfrentaram discriminação na lei e na prática, bem como violência doméstica e pública. A Fundação Aurat documentou 8.539 casos de violência contra mulheres, incluindo 1.575 assassinatos, 827 estupros, 610 incidentes de violência doméstica, 705 “crimes de honra” e 44 ataques com ácido. Em dezembro, o parlamento paquistanês, buscando enfrentar este problema, aprovou o Projeto de Lei de 2010 sobre Controle de Ácido e Prevenção de Crimes por Ácido e também o Projeto de Lei de 2008 de Prevenção de Práticas Anti-Mulheres (Emenda ao Código Penal), destinado a fortalecer e proteger as mulheres e a ampliar as penas para os perpetradores de violência baseada em gênero. Esta foi a primeira vez que os ataques com ácido e práticas como, por exemplo, casamentos forçados foram criminalizados no Paquistão.
Mais de 8 mil prisioneiros continuaram no corredor da morte. Segundo a Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, pelo menos 313 pessoas foram sentenciadas à pena capital, mais da metade delas por homicídio. Três pessoas foram sentenciadas à morte por blasfêmia. A última execução aconteceu em 2008.
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