Defensores dos direitos humanos e jornalistas independentes continuaram enfrentando ameaças, assédios e ataques, cujas investigações produziram poucos resultados concretos. A liberdade de reunião e de expressão continuou sofrendo ataques por meio da proibição de manifestações, da dispersão violenta de protestos e da perseguição de indivíduos conforme previsto na legislação antiextremismo. A situação da segurança no norte do Cáucaso continuou frágil. Ataques de grupos armados e persistentes violações de direitos humanos, incluindo assassinatos, desaparecimentos forçados e tortura, continuaram afetando a região. Em toda a Rússia, foram frequentes as denúncias de tortura e outros maus-tratos cometidos por agentes policiais.
Ao final do ano, a Rússia parecia ter suportado bem a crise econômica, sem apresentar nenhuma convulsão social, econômica ou política importante. Houve certa melhora nas relações com vários países vizinhos e ocidentais.
A liderança continuou enfatizando o compromisso com a modernização, inclusive por meio do reforço do Estado de direito e da reforma do sistema judiciário. Contudo, a corrupção generalizada e a separação ineficaz de poderes foram amplamente percebidas como obstáculos a essa agenda.
O ano foi marcado por atividades de diversos movimentos sociais em todo o país, muitas vezes em nível local, sobre uma série de questões, incluindo violações dos direitos civis e políticos, preocupações ambientais e importantes necessidades sociais. Os protestos realizados em Moscou, São Petersburgo e em outros lugares, em sua maioria, foram pacíficos, embora várias ações não-autorizadas tenham sido dispersadas com uso de força excessiva pela polícia.
O forte viés político dos meios de comunicação impressos e de teleradiodifusão foi motivo de preocupações; porém, os meios eletrônicos mostraram mais pluralismo. Redes sociais e de vídeo digital online foram utilizadas criativamente para mobilizar o ativismo social e expor violações dos direitos humanos. Veículos da imprensa estatal, em particular a televisão, foram frequentemente usados para desacreditar políticos da oposição, líderes de países vizinhos e ativistas da sociedade civil.
As autoridades russas não investigaram casos de violações dos direitos humanos perpetradas pelas forças armadas em agosto de 2008, durante o conflito com a Geórgia. A Rússia e as autoridades de facto da Ossétia do Sul não cooperaram com as investigações do Conselho da Europa sobre o destino de pessoas desaparecidas, nem permitiram o acesso da Missão de Observação da UE às zonas afetadas pelo conflito na Ossétia do Sul.
Início da páginaDenúncias de tortura e outros maus-tratos cometidos por agentes de aplicação da lei, supostamente com o objetivo de extrair confissões ou extorquir, continuaram generalizadas. Casos de corrupção e cumplicidade entre a polícia, investigadores e procuradores foram amplamente percebidos como fatores comprometedores da eficácia de investigações e capazes de obstruir processos. Detentos relataram com frequência a aplicação de punições disciplinares ilegais e a negação de cuidados médicos necessários.
A reforma do sistema judiciário continuou sendo apresentada como uma prioridade do governo. As mudanças, entretanto, permaneceram fragmentadas e só tiveram um impacto limitado sobre as deficiências estruturais inerentes ao sistema. As principais causas dessa situação foram a influência política e a corrupção generalizada dentro do sistema judicial.
Após críticas generalizadas sobre abuso policial, inclusive partindo de dentro das agências de aplicação da lei, o governo apresentou um novo projeto de lei sobre a polícia. Organizações de direitos humanos expressaram preocupação com o fato de a proposta não introduzir mecanismos eficazes para responsabilizar os agentes policiais por abusos e violações dos direitos humanos.
Em uma ação cujo objetivo foi aumentar a independência das investigações criminais, o governo anunciou em setembro que o Comitê de Investigação seria transformado, a partir de 2011, em um órgão independente de investigação. Ele seria subordinado diretamente ao Presidente, sendo retirado do controle do Ministério Público Federal. O Comitê foi criado originalmente em 2007 com o objetivo de separar as funções de investigação e acusação.
Uma preocupação generalizada com casos de mortes sob custódia decorrentes da negação de tratamento médico adequado levou a mudanças na lei que regula a prisão preventiva. Prisões domiciliares e restrições ao uso de prisão preventiva foram introduzidas para pessoas suspeitas de crimes contra a economia. O Ministério Público Federal concluiu que o tratamento médico inadequado foi a causa da morte, na prisão, do advogado Sergei Magnitsky, em novembro de 2009. Entretanto, ninguém foi processado por isso.
Aumentou a preocupação com a independência do Ministério Público e do Poder Judiciário no decorrer do segundo julgamento de Mikhail Khodorkovsky e Platon Lebedev por acusações relacionadas ao roubo do petróleo produzido pela YUKOS. As acusações aparentavam ter motivações políticas. Em 30 de dezembro, eles foram condenados, cada um, a um total de 14 anos de prisão, após um julgamento injusto marcado por violações processuais, incluindo assédio de testemunhas e recusa do juiz em ouvir testemunhas-chaves da defesa. Os dois deveriam, portanto, ser libertados em 2017, tendo em conta o tempo já passado na prisão.
Início da páginaA repressão contra o ativismo social continuou, especialmente contra grupos que levantaram questões polêmicas, que foram capazes de mobilizar a dissidência pública ou foram financiados a partir do exterior. Organizadores de mobilizações muitas vezes foram alvos de assédio e intimidação, inclusive por parte de policiais e de membros de organizações pró-governo. Várias manifestações pacíficas em Moscou e São Petersburgo foram declaradas não-autorizadas e dispersadas à força, resultando em dezenas de manifestantes detidos e mantidos sob custódia policial por várias horas. Alguns foram condenados a vários dias de detenção apenas por exercerem o direito à liberdade de reunião.
Em outubro, os ativistas que se reuniram no movimento “Estratégia 31" foram finalmente autorizados a organizar uma manifestação pacífica em prol da liberdade de reunião na praça Triumfalnaya, em Moscou. Em pelo menos 10 ocasiões, desde maio de 2009, o movimento teve negada a permissão para se reunir na praça.
Protestos públicos generalizados contra a construção de uma rodovia cortando a floresta Khimki, perto de Moscou, levaram à interrupção do projeto por alguns meses, ao mesmo tempo em que ativistas enfrentaram intimidações e assédio. Konstantin Fetisov, um dos manifestantes pacíficos contrários ao projeto, foi atacado por desconhecidos em novembro e ficou gravemente ferido.
Em outubro, numa decisão sem precedentes, um tribunal em São Petersburgo declarou que a interdição de uma parada de ativistas dos direitos LGBT pelo conselho municipal havia sido ilegal. Mais tarde, naquele mês, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos decidiu que a proibição das paradas pelas autoridades da cidade de Moscou em 2006, 2007 e 2008 havia violado o direito à liberdade de reunião pacífica e que os organizadores foram discriminados em função da orientação sexual.
Início da páginaJornalistas, ativistas ecológicos, membros da oposição política e defensores dos direitos humanos enfrentaram perseguições, intimidações e ataques. As autoridades continuaram enviando mensagens contraditórias sobre a liberdade de expressão. Prometeram maior respeito e proteção aos jornalistas e ativistas da sociedade civil, ao mesmo tempo em que lançaram, ou não conseguiram conter, campanhas de difamação contra notórios críticos do governo.
Em novembro, o jornalista Oleg Kashin foi violentamente atacado em Moscou. O ataque provocou indignação generalizada e uma promessa do Presidente Medvedev de que o ato seria diligentemente investigado.
Investigações sobre ataques e assassinatos de outros proeminentes defensores dos direitos humanos e jornalistas produziram poucos resultados. O Comitê de Investigação continuou nomeando as mesmas pessoas como suspeitas do assassinato de Anna Politkovskaya, jornalista e defensora dos direitos humanos assassinada a tiros em outubro de 2006, apesar de eles terem sido absolvidos por falta de provas.
Definições vagas sobre a lei de combate ao extremismo foram frequentemente exploradas para restringir a liberdade de expressão.
O ambiente permaneceu difícil para defensores dos direitos humanos e ONG independentes. Continuaram as ameaças, agressões, assédios administrativos e ataques públicos ao seu caráter e integridade, com a intenção de impedir seu trabalho e minar sua credibilidade perante o público.
A violência motivada por questões raciais continuou sendo um problema sério. De acordo com dados preliminares do Centro SOVA de Informação e Análise, 37 pessoas morreram em consequência de crimes de ódio. Em abril, Eduard Chuvashov, juiz de Moscou, foi morto por indivíduos supostamente pertencentes a um grupo extremista, depois de ter condenado vários autores de crimes de ódio a longas penas de prisão. Em outubro, Vasilii Krivets, de 22 anos, foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato de 15 pessoas de aparência não-eslava. A detenção de dois suspeitos do assassinato do advogado Stanislav Markelov e da jornalista Anastasia Baburova em janeiro de 2009 foi prorrogada até o final do ano. O inquérito anunciou que os dois suspeitos pertenciam a um grupo de extrema-direita e planejaram matar Stanislav Markelov depois de ele ter representado a família de um militante antifascista assassinado.
Início da páginaA situação da segurança no norte do Cáucaso permaneceu instável, com a violência se alastrando continuamente além da Chechênia para as regiões vizinhas do Daguestão, Inguchétia, Cabardino-Balcária e Ossétia do Norte. As autoridades do governo reconheceram publicamente que as medidas tomadas para combater a violência armada não foram eficazes. Um grande número de policiais foi morto em ataques de grupos armados que também visaram civis indiscriminadamente em atentados suicidas. Em setembro, consta que um carro-bomba matou pelo menos 17 pessoas e deixou mais de 100 feridas em Vladikavkaz, na Ossétia do Norte.
Por todo o norte do Cáucaso , policiais foram acusados de violações dos direitos humanos. Dentre as acusações estão detenção ilegal, tortura e, em alguns casos, execução extrajudicial de pessoas suspeitas de pertencer a grupos armados. Houve uma completa falta de investigações eficazes e de responsabilizações por essas violações dos direitos humanos. Jornalistas e ativistas de direitos humanos que relataram tais violações enfrentaram intimidações e assédio.
Em sessão no mês de junho, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa debateu a eficácia dos mecanismos legais de combate a violações dos direitos humanos no norte do Cáucaso. O órgão exortou as autoridades russas a implementarem as decisões do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e a se absterem de cometer atos ilegais no transcorrer da luta contra os grupos armados e o terrorismo.
Os parentes de pessoas suspeitas de serem combatentes armados continuaram denunciando estarem sendo perseguidos. Jornalistas e organizações da sociedade civil enfrentaram controles rigorosos e intimidações por parte das autoridades. Autoridades do governo dificultaram as investigações sobre desaparecimentos forçados, tortura e detenção ilegal, ao se recusarem a cooperar com as autoridades investigadoras.
Em mais um sinal das crescentes restrições à liberdade de expressão das mulheres chechenas, foram relatados vários casos de mulheres sendo atingidas por armas de paintball, aparentemente por não usarem véu.
Segundo as autoridades, o número de ataques a policiais e a funcionários públicos aumentou em 20 por cento, enquanto organizações russas de direitos humanos relataram crescimento das detenções arbitrárias e dos desaparecimentos forçados. Advogados, jornalistas e defensores dos direitos humanos enfrentam ataques e assédios cada vez maiores.
Mais duas advogadas do Daguestão teriam sido agredidas por policiais no cumprimento de seus deveres como representantes legais.
Apesar dos esforços do presidente da Inguchétia para promover o diálogo com as organizações independentes de direitos humanos, sérias violações continuaram, com jornalistas e ativistas dos direitos humanos sofrendo ameaças e ataques.