Após os resultados das polêmicas eleições, em dezembro, ocorreram manifestações em todo o país, bem como prisões de centenas de manifestantes pacíficos. Ao longo de todo o ano, a liberdade de reunião foi frequentemente desrespeitada no que se refere a demandas políticas, ambientais, sociais e outras formas de protestos. Os meios de comunicação continuaram operando em um ambiente restrito. Membros de minorias religiosas enfrentaram perseguição, e persistiram as preocupações com o uso arbitrário da legislação contra o extremismo. Defensores de direitos humanos e jornalistas continuaram a sofrer pressões, e a maioria das investigações sobre agressões no passado não obteve progresso. Denúncias de tortura continuaram frequentes, apesar de algumas reformas superficiais na polícia. A situação da segurança no norte do Cáucaso continuou instável, e sérios abusos de direitos humanos foram cometidos tanto pelos grupos armados quanto por agentes da segurança pública.
Os altos preços do petróleo e os gastos significativos do governo para estimular a economia permitiram que a Rússia apresentasse taxas de crescimento relativamente altas ao final do ano. Contudo, as prioridades anunciadas pelo Estado para a continuidade da modernização, para o combate à corrupção e para reformas no sistema judiciário criminal mostraram poucos resultados tangíveis.
Após as eleições parlamentares marcadas por denúncias generalizadas e numerosos exemplos documentados de fraude eleitoral, o partido governista Rússia Unida retornou ao poder, em dezembro, com uma participação significativamente reduzida no total de votos.
Os resultados parecem indicar um clamor crescente por liberdades civis e políticas e por direitos sociais e econômicos, ao contrário da estabilidade prometida – e em grade parte cumprida – pela “dupla” Putin/Medvedev.
As manifestações que se seguiram às eleições cresceram a ponto de se tornarem as maiores já vistas no país desde o colapso da União Soviética. Os protestos aproveitaram o crescente engajamento cívico exibido ao longo do ano – por indivíduos, grupos de interesse e comunidades locais – em torno de questões como corrupção, redução das políticas de bem-estar social, abusos da polícia e meio ambiente.
A TV e outros meios de comunicação de massa continuaram a seguir a orientação oficial. Críticas públicas mais duras às autoridades estiveram, em sua maioria, confinadas aos meios de comunicação impressos de menor porte e à internet, que continua ganhando influência.
Top of pageAs autoridades continuaram a restringir a liberdade de reunião dos movimentos mais críticos da sociedade civil, mas algumas manifestações públicas, proibidas em anos anteriores, foram permitidas. Todavia, numerosos protestos foram proibidos, e várias pessoas envolvidas em manifestações políticas pacíficas foram detidas em diversas ocasiões − algumas de "forma preventiva" (a caminho dos protestos) − sendo, frequentemente, sentenciadas à prisão administrativa.
Várias manifestações pacíficas espontâneas ocorreram em todo o país nos dias que se seguiram às polêmicas eleições parlamentares de 4 de dezembro. Mais de mil manifestantes foram presos e mais de cem foram sentenciados à prisão administrativa mediante processos que, frequentemente, violavam as normas para julgamentos justos. Protestos autorizados posteriormente, em 10 e 24 de dezembro, reuniram mais de 50 mil manifestantes em Moscou e dezenas de milhares em outras partes do país, terminando pacificamente.
Ativistas dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) continuaram a enfrentar perseguição e agressões. Tentativas de organizar passeatas do orgulho gay e pró-direitos LGBT, em Moscou e São Petersburgo, foram proibidas e rapidamente dispersas pela polícia.
O controle estatal sobre as redes de televisão e outros meios de comunicação de massa permaneceu forte. A importância da internet como forma alternativa de informação e fórum para a troca de comentários e opiniões continuou a crescer. Embora a internet continue sendo relativamente livre de interferência estatal, muitos sites e blogs famosos que estavam noticiando abusos eleitorais foram derrubados por ataques, tanto antes como logo depois das eleições parlamentares de dezembro.
Jornalistas continuaram sofrendo ameaças e agressões físicas por escrever sobre temas politicamente delicados, como a corrupção. Poucas vezes esses ataques foram efetivamente investigados ou resultaram em processos.
A legislação antiextremismo foi frequentemente utilizada de forma arbitrária para tomar medidas drásticas contra aqueles que são críticos às autoridades. Em resposta, a Suprema Corte emitiu um acórdão, em junho, estabelecendo que a crítica a autoridades governamentais ou a políticos não constitui incitamento ao ódio sob a legislação contra o extremismo. Minorias religiosas como grupos muçulmanos não tradicionais e Testemunhas de Jeová continuaram enfrentando perseguição. Leis banindo "propaganda de homossexualidade entre menores" foram adotadas na região de Arkhangelsk. Um avanço foi a descriminalização da lei da difamação, ocorrida ao final do ano.
Regulamentos restritivos impostos às ONGs em anos anteriores foram parcialmente abrandados, e uma decisão do Superior Tribunal de Arbitragem suprimiu algumas restrições ao financiamento internacional para as ONGs. Entretanto, defensores dos direitos humanos e jornalistas continuaram a enfrentar perseguição e ameaças, inclusive por parte de agentes cujos delitos foram por eles expostos. A maioria das investigações sobre casos passados de assassinatos e de agressões físicas de defensores de direitos humanos, jornalistas e advogados continua parada ou pouco avançou.
A nova lei relativa à polícia, que entrou em vigor em março, introduziu a avaliação formal de todos os policiais e reduziu seu número. Todavia, não foram adotados novos dispositivos substanciais para fortalecer a prestação de contas pela polícia ou para combater a impunidade por violações cometidas por agentes da segurança pública, e os benefícios da lei continuaram difíceis de alcançar. Denúncias de tortura e de outras formas de maus-tratos permaneceram generalizadas; porém, poucas vezes foram efetivamente investigadas. Laudos de lesões foram comumente desconsiderados sob o argumento de que os ferimentos resultaram do uso legítimo da força. Foram poucos os processos instaurados contra os denunciados. A negação de acesso a cuidados médicos adequados durante a custódia foi amplamente denunciada e supostamente usada como forma de extrair confissões. Prisioneiros condenados frequentemente alegaram terem sido submetidos à violência, tanto por agentes prisionais quanto pelos demais internos, logo depois de chegarem à prisão.
Apesar das atuais tentativas para melhorar a eficiência e a independência do Judiciário, denúncias de interferência política, corrupção e conluio de juízes, promotores e agentes encarregados de fazer cumprir a lei continuaram resultando em frequentes denúncias de julgamentos injustos.
A situação de segurança no norte do Cáucaso continua instável e irregular. Grupos armados continuaram a ter como alvo funcionários da justiça e policiais, com os civis ficando em meio ao fogo cruzado e, algumas vezes, sendo deliberadamente atacados. As operações das forças de segurança em toda a região foram frequentemente acompanhadas de sérias violações de direitos humanos. Ocorreram denúncias de intimidação de testemunhas e de perseguição e assassinato de jornalistas, ativistas de direitos humanos e advogados.
A rápida reconstrução da Chechênia, após o conflito, continuou contando com grande volume de recursos federais, embora o desemprego permaneça sendo um problema. A atividade de grupos armados declinou em comparação com outras regiões do norte do Cáucaso. As operações de manutenção da lei continuaram originando denúncias de sérias violações de direitos humanos. Em uma carta para a ONG de direitos humanos Comitê Interregional contra a Tortura, um promotor sênior da Chechênia reconheceu que as investigações sobre desaparecimentos forçados naquela república são ineficazes.
A comunidade local de direitos humanos prosseguiu com uma ferida aberta por conta do assassinato não resolvido de Natalia Estemirova, em 2009. Além disso, enfrentou intimidação e perseguição.
O ressurgimento das "tradições chechenas", ativamente promovido pelo presidente da República da Chechênia, Ramzan Kadyrov, resultou em um aumento das desigualdades de gênero e da vulnerabilidade de mulheres e meninas à violência doméstica e sexual.
Grupos armados continuaram a atacar agentes de segurança, membros das administrações locais e figuras públicas proeminentes, incluindo mulás que pregam o Islã tradicional. Operações de manutenção da lei resultaram em várias denúncias de desaparecimentos forçados, de execuções extrajudiciais e de tortura. Violações passadas, nas quais agentes de segurança do Estado estariam implicados, não foram prontamente investigadas nem deram origem a processos.
A situação da segurança na Inguchétia parecia ter melhorado de forma significativa no início do ano. Contudo, ataques de grupos armados e denúncias de sérias violações de direitos humanos por agentes de segurança, particularmente desaparecimentos forçados, aumentaram nos últimos meses.
Em fevereiro, dois ataques de grupos armados contra alvos civis, em um resort turístico na região de Elbrus, resultaram em três mortes. Dezenas de suspeitos de serem membros do grupo armado foram mortos nas operações de segurança que se seguiram e muitos foram presos. Ocorreram repetidas denúncias de desaparecimentos forçados e de tortura por parte de agentes de segurança.
Houve incidentes esporádicos de violência. Forças de segurança local e federal situadas na Ossétia do Norte lançaram operações de segurança nessa república e na vizinha Inguchétia, as quais resultaram, segundo informações, em numerosas violações de direitos humanos.