Forças do governo usaram força letal ou de outra forma excessiva contra manifestantes pacíficos que saíram às ruas em número sem precedentes para exigir reformas políticas e a queda do regime. O padrão e a magnitude dos abusos cometidos pelo Estado podem ter constituído crimes contra a humanidade. Mais de 4.300 pessoas teriam morrido durante os protestos ou por motivos relacionados, bem como durante os funerais de manifestantes, a maioria dos quais parece ter sido morta por disparos das forças de segurança, inclusive de franco-atiradores. Tanques de guerra foram usados em operações militares em áreas residenciais. Membros das forças de segurança também foram mortos, alguns porque teriam se recusado a atirar nos manifestantes, outros em ataques de soldados desertores ou de outros indivíduos que se uniram aos adversários do governo. Alguns dos presos foram libertados mediante anistias; porém, milhares de pessoas foram detidas por causa dos protestos, muitas mantidas incomunicáveis e torturadas. Pelo menos 200 detentos teriam morrido sob custódia em circunstâncias suspeitas; muitos aparentavam terem sido torturados. As autoridades não realizaram investigações independentes sobre denúncias de homicídios ilegais, torturas e outras sérias violações dos direitos humanos que a forças de segurança cometeram com impunidade. A repressão forçou milhares de sírios ao desalojamento; muitos fugiram para países vizinhos. Sentenças de morte continuaram a ser impostas e execuções, segundo informações, continuaram a ser efetuadas.
Pequenas manifestações pró-reforma, que começaram em fevereiro, transformaram-se em extensos protestos em meados de maio, depois que, em Deraa, as forças de segurança usaram a força de modo brutalmente excessivo contra pessoas que demandavam a libertação de crianças detidas. Os protestos se alastraram rapidamente, e as forças do governo tentaram suprimi-los com força bruta, inclusive usando franco-atiradores para disparar contra multidões pacíficas, enquanto alegavam que obscuras "gangues armadas" seriam responsáveis pela violência.
Em resposta aos protestos, o presidente Bashar al-Assad anunciou uma série de reformas. Em abril, ele suspendeu o estado de emergência que vigorava continuamente em todo o país desde 1963; extinguiu o notoriamente injusto Supremo Tribunal de Segurança do Estado, que havia encarcerado milhares de críticos e adversários do governo; além de decretar que determinados integrantes da minoria curda recebessem a cidadania síria, embora excluindo outros que permaneceram apátridas. Entretanto, ao mesmo tempo, ele emitiu um decreto permitindo a detenção sem acusação ou julgamento por um período de até dois meses. Uma nova lei sobre reuniões pacíficas foi adotada, prevendo que apenas manifestações com a “devida licença” prévia das autoridades seriam consideradas legais. Em março, junho e novembro, o Presidente concedeu cinco diferentes tipos de anistia para distintas categorias de presos. Entre os libertados, estavam prisioneiros de consciência e pessoas detidas durante os protestos. Porém, a grande maioria desses detentos seguia encarcerada. Em agosto, foram adotadas leis referentes aos novos partidos políticos, às eleições e à mídia. Apesar de oferecerem certo grau de liberalização, nenhuma das reformas proporcionou garantias efetivas à liberdade de expressão e de associação.
Em março, o Conselho de Direitos Humanos da ONU estabeleceu uma missão investigativa que, em agosto, concluiu que crimes contra a humanidade podem ter sido cometidos na Síria. Em agosto, o Conselho criou uma Comissão de Inquérito Internacional Independente; em 23 de novembro, essa Comissão expressou grave preocupação de que os militares e as forças de segurança sírias houvessem cometido crimes contra a humanidade, tais como "homicídios, torturas, estupros e outras formas de violência sexual; prisões ou outras formas de privação severa da liberdade; e desaparecimentos forçados". As autoridades sírias recusaram-se a permitir a entrada no país tanto do Conselho quanto da Comissão, bem como da maioria dos meios de comunicação internacionais e das organizações de direitos humanos independentes.
No Conselho de Segurança da ONU, a Rússia, a China e outros Estados bloquearam uma proposta de resolução condenando os crimes e outros abusos cometidos na Síria. Porém, os EUA, a UE e a Liga dos Países Árabes (Liga Árabe) impuseram sanções: a partir de abril, os EUA prorrogaram as sanções contra a Síria, as quais vigoravam desde 2004; em maio, a UE impôs sanções seletivas contra líderes sírios, as quais foram depois ampliadas; em novembro, a Liga Árabe primeiro suspendeu a Síria e depois impôs sanções econômicas, quando o governo descumpriu a promessa que fez à Liga de retirar as forças armadas das cidades sírias, de interromper a violência e de libertar as pessoas presas por ligação com os protestos. No fim de dezembro, a Liga Árabe enviou observadores para monitorar o cumprimento das promessas do governo.
Top of pageForças do governo recorreram repetidamente à força letal e excessiva contra manifestantes pacíficos e outros. Aparentemente, muitas pessoas foram alvejadas por franco-atiradores quando participavam de grandes manifestações ou de funerais de pessoas mortas em dias anteriores. Tanques e outros veículos militares blindados foram enviados a Deraa, Homs e outros lugares, e abriram fogo em áreas residenciais. No governorado de Idleb, noroeste da Síria, aplicou-se uma política de "terra arrasada". O governo tentou justificar sua repressão brutal alegando estar sendo atacado por gangues armadas, mas não conseguiu produzir evidência alguma disso até o fim do ano. Para reagir à contínua repressão, uma resistência armada começou a tomar forma, constituindo-se, em parte, por soldados desertores do exército que passaram a combater o governo. Até o fim do ano, mais de 4.300 pessoas – segundo a ONU, mais de 5.000 – teriam sido mortas em função dos protestos e revoltas, muitas delas manifestantes desarmados ou expectadores que não apresentavam qualquer ameaça às forças de segurança ou a outras pessoas. O número de feridos foi muito mais alto.
Manifestantes feridos que buscavam cuidados médicos em centros de saúde arriscavam-se a ser presos e a sofrer abusos, tais como recusa de atendimento. Médicos e funcionários hospitalares também se arriscavam a ser presos e perseguidos caso participassem ou apoiassem os protestos, ou se auxiliassem manifestantes feridos sem denunciá-los às autoridades; há informações de que diversos trabalhadores da saúde teriam sido mortos por tratarem manifestantes feridos.
As liberdades de expressão, de associação e de reunião continuaram sendo severamente restringidas, apesar da suspensão do estado de emergência e da promulgação de leis presumidamente voltadas a consentir manifestações pacíficas e registro de partidos políticos. As forças de segurança prenderam milhares de pessoas por ligações com os protestos, algumas durante as manifestações e outras durante batidas policiais domiciliares de porta em porta ou em diligências coletivas. Centenas, possivelmente milhares, de pessoas foram vítimas de desaparecimentos forçados e foram mantidas incomunicáveis em centros de detenção oficiais e provisórios, tais como ginásios de esportes. Em todos esses locais, predominavam a tortura e outros abusos.
Entre os detidos estavam ativistas e dissidentes políticos, jornalistas, blogueiros, imãs, soldados que se recusaram a atirar nos manifestantes e ativistas de direitos humanos, alguns dos quais tiveram que se esconder para evitar serem presos. Dos detidos, centenas foram soltos depois de julgados em tribunais penais ou militares, ou com base em anistias concedidas pelo Presidente Assad. Porém, outros milhares permaneciam encarcerados no fim do ano.
Muitos dissidentes e ex-presos continuaram sendo impedidos de viajar ao exterior com base em proibições administrativas que eles não tinham meios para contestar. Cidadãos sírios que vivem no estrangeiro e que demonstraram solidariedade aos manifestantes foram vigiados e hostilizados por funcionários de embaixadas e por outros indivíduos. Alguns de seus parentes na Síria também foram alvos de abusos em represália a suas atividades.
Diante dos protestos e das preocupações internacionais, o Presidente Assad concedeu cinco diferentes anistias que incluíam entre seus beneficiários prisioneiros de consciência, pessoas detidas por ligações com os protestos e membros da proscrita Irmandade Muçulmana. Segundo os meios de comunicação estatais da Síria – porém, sem confirmação de outras fontes – as duas últimas anistias, ambas em novembro, propiciaram a libertação de mais de 1.700 pessoas que haviam sido detidas durante os protestos.
A tortura e outros maus-tratos contra detidos foram praticados intensamente e com impunidade pelas forças de segurança, como meio de obter informações, forçar "confissões" e punir e aterrorizar as pessoas suspeitas de se oporem ao governo. Algumas vítimas temiam sofrer represálias caso suas identidades fossem reveladas.
A incidência crescente de tortura refletiu-se em um aumento repentino das mortes em detenção, com o registro de pelo menos 200 pessoas mortas sob custódia depois de detidas em função dos protestos. Em muitos casos, as evidências disponíveis indicavam a aplicação de tortura ou de outros maus-tratos como provável causa da morte. Nenhum responsável foi levado à Justiça. Algumas das vítimas eram crianças.
As autoridades anunciaram que investigariam somente dois casos de mortes sob custódia, o de Hamza Ali al-Khateeb, de 13 anos, e o do médico Sakher Hallak (veja acima), uma vez que foram bastante divulgadas as denúncias de que tenham sido torturados. Em ambos os casos, há informações de que as investigações − que, ao que parece, não foram nem independentes nem imparciais − absolveram as forças de segurança.
Top of pageCom exceção das problemáticas investigações sobre as duas supostas mortes em custódia, as autoridades não investigaram os muitos homicídios ilegais, torturas e outros sérios abusos cometidos pelas forças de segurança, nem fizeram os responsáveis prestarem contas. Ademais, nada fizeram para investigar e responsabilizar os indivíduos que, em anos anteriores, cometeram graves violações, tais como os milhares de desaparecimentos forçados e os homicídios de internos do presídio militar de Saydnaya, em 2008.
Integrantes da minoria curda, que constitui cerca de 10 por cento da população, continuaram a ser discriminados com base em sua identidade, inclusive sofrendo restrições legais ao uso de sua língua e sua cultura. Além disso, todos eles vinham sendo privados de cidadania, até que o Presidente Assad emitiu o Decreto Nº 49, de 7 de abril, conferindo nacionalidade síria aos curdos ajanib ("estrangeiros"), mas não àqueles conhecidos como maktoumeen ("ocultos", que significa, na verdade, não registrados), que vivem, principalmente, no governorado de Al Hasakah. Ativistas que defendem os direitos dos curdos continuaram sendo presos e encarcerados.
As mulheres continuaram a ser discriminadas tanto na lei quanto na prática. Além disso, continuaram a sofrer atos de violência motivados por seu gênero, inclusive homicídios e outros crimes graves cometidos contra elas, geralmente por parentes homens que alegam publicamente defenderem a "honra" da família. No dia 3 de janeiro, o Presidente Assad emendou, por decreto, o Código Penal, aumentando a punição mínima para homicídio e outros crimes violentos cometidos contra mulheres em nome da "honra da família", que passou de dois anos para cinco e sete anos. O decreto também impôs uma pena de, no mínimo, dois anos de prisão para estupro e outras agressões sexuais. Anteriormente, os responsáveis se livravam de qualquer processo ou punição caso casassem com a vítima.
Top of pageSentenças de morte continuaram a ser impostas. Houve relatos não confirmados de execuções; porém, as autoridades sírias não divulgaram informação alguma a esse respeito.
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