O ambiente de discórdia e desconfiança dentro do governo de unidade nacional (GUN) continuou a dificultar que o Acordo Político Global produzisse resultados essenciais. Tal situação provocou sérios atrasos na elaboração de uma nova Constituição e na implementação das reformas eleitorais, de segurança e dos meios de comunicação que possibilitariam a realização de eleições. Integrantes das forças de segurança continuaram a exercer pressão sobre os dois partidos do Movimento por Mudança Democrática (MDC), ordenando a prisão de importantes membros do partido ou perturbando ilegalmente suas atividades políticas. Defensores dos direitos humanos foram presos, detidos e torturados sob custódia da polícia, principalmente na esteira dos protestos no Oriente Médio e no norte da África. A polícia continuou a atuar de modo partidário, não tomando as devidas providências contra os membros do partido do Presidente Mugabe, o ZANU-PF, quando eles hostilizaram, intimidaram ou espancaram pessoas que presumiam ser adversários políticos.
O GUN não conseguiu concluir o processo de elaboração de uma nova Constituição, que já transcorria com mais de um ano de atraso. A demora devia-se, principalmente, à falta de financiamento do processo de preparação da Constituição e às brigas entre os partidos que compunham o governo de unidade. O Partido da União Nacional Africana do Zimbábue - Frente Patriótica (ZANU-PF) continuou resistindo à realização das reformas no sistema de segurança e no setor de comunicações acordadas como parte do Acordo Político Global, assinado pelos três principais partidos, em setembro de 2008, e que levou à formação do governo de unidade em fevereiro de 2009. No dia 24 de novembro, a Autoridade de Telecomunicações do Zimbábue concedeu licenças de telerradiodifusão comercial para os grupos de mídia AB Communications e Zimbabwe Newspapers Group, ambos controlados pelo Estado. Os dois grupos de comunicação eram considerados próximos ao ZANU-PF.
A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), por meio do presidente Jacob Zuma, da África do Sul, continuou a mediar a relação entre o ZANU-PF e os dois partidos MDC, que haviam acordado um roteiro para a realização de eleições. No entanto, a implementação dos acordos foi novamente prejudicada por suspeitas e desconfianças nos níveis mais altos do governo. Em junho, o brigadeiro-general Douglas Nyikayaramba causou alarme ao ser citado no jornal Herald, controlado pelo Estado, ao afirmar que o ZANU-PF e as forças de segurança estavam alinhados e que o primeiro-ministro, Morgan Tsvangirai, era uma ameaça à segurança.
Em 31 de março, o órgão tripartite sobre Cooperação em Políticas, Defesa e Segurança da SADC (Organ Troika on Politics,Defence and Security Cooperation) pediu o fim da violência no Zimbábue, inclusive das prisões e intimidações de oponentes políticos do ZANU-PF.
As notícias sobre uma possível eleição em 2011, circuladas principalmente pelo Presidente Mugabe e por membros do ZANU-PF, fizeram aumentar as tensões em meio às comunidades das áreas rurais e periferias urbanas. Em 2008, elas foram as mais afetadas pela violência patrocinada pelo Estado. Houve denúncias de hostilidades e intimidações de apoiadores do ZANU-PF contra supostos adversários. Em algumas áreas, essa situação provocou confrontos interpartidários. Entretanto, ao que parece, a polícia prendeu apenas os adversários do ZANU-PF, o que cria a percepção de que os apoiadores do ZANU-PF estão acima da lei.
Durante os preparativos para o congresso do partido de Morgan Tsvangirai, o MDC-T, em Bulawayo, em abril, alguns membros do partido envolveram-se em confrontos violentos na disputa por cargos. Embates similares dentro do MDC-T foram também registrados nos congressos provinciais de Manicaland, Masvingo, Bulawayo e Midlands.
Top of pageA polícia usou a Lei de Segurança e Ordem Pública para prejudicar as atividades políticas dos dois MDC. Durante todo o ano, os policiais continuaram a interferir nas atividades desses partidos, impedindo suas reuniões ou omitindo-se em agir quando apoiadores do ZANU-PF tentavam perturbar as reuniões. Em algumas situações, a polícia usou força excessiva, ou ameaçou usá-la, para impedir a realização de encontros do MDC que haviam sido sancionados pelos tribunais; nenhum encontro do ZANU-PF foi impedido pela polícia. Nas situações de violência interpartidária, a polícia raramente prendeu apoiadores do ZANU-PF.
Uma gangue ligada ao ZANU-PF, denominada Chipangano, cometeu abusos dos direitos humanos com total impunidade, em Mbare, onde a gangue tem sua base, e em outras partes de Harare. No dia 23 de julho, eles invadiram o prédio do Parlamento, interromperam uma audiência pública sobre um projeto de lei da Comissão de Direitos Humanos do Zimbábue e espancaram diversas pessoas; entre elas, um parlamentar e um jornalista. Apesar da presença da polícia no local, ninguém foi preso. Em outubro, nas cidades de Marondera e Mutare, grupos de militantes do ZANU-PF interromperam as sessões de consulta pública que estavam sendo conduzidas pelo Parlamento a respeito de um projeto de Lei sobre Reforma Eleitoral, o que atrasou ainda mais o processo de reforma eleitoral.
Persistiram as prisões de altos dirigentes dos partidos MDC por motivos políticos. Dezenas de correligionários do MDC também foram presos; alguns passaram vários meses detidos por acusações de natureza política. Prisões similares, em anos anteriores, acabaram em absolvição ou em retirada das acusações.
Os defensores dos direitos humanos continuaram a enfrentar prisões arbitrárias, detenções ilegais, acusações politicamente motivadas e até tortura sob custódia policial. Ativistas comunitários enfrentaram hostilidades e intimidações de membros do ZANU-PF devido ao seu trabalho ligado aos direitos humanos. Tais ameaças e intimidações aumentaram quando o ZANU-PF começou a fazer pronunciamentos sobre possíveis eleições em 2011.
Em 19 de fevereiro, Munyaradzi Gwisai e outros 44 ativistas foram presos pela polícia em Harare quando realizavam em encontro para discutir as implicações dos protestos ocorridos no Egito e na Tunísia. Eles foram detidos além das 48 horas permitidas por lei e, apenas alguns minutos antes de serem levados a um tribunal, em 23 de fevereiro, foram informados de que seriam acusados de traição. Eles foram privados de tratamento médico e de acesso a seus advogados; alguns denunciaram terem sido torturados pela polícia. No dia 7 de março, 39 dos ativistas foram absolvidos. Embora as acusações de traição tenham sido retiradas em julho, eles continuaram a ser acusados de "conspiração para cometer violência ou para incitar a violência entre a população ou participar de aglomeração com a intenção de promover a violência pública, por perturbação da paz e por fanatismo".
Em 28 de fevereiro, sete integrantes das organizações ativistas Mulheres do Zimbábue Levantem (WOZA) e Homens do Zimbábue Levantem (MOZA) foram presos em Bulawayo. Eles teriam sido torturados na Delegacia Central de Polícia da cidade. Dois dias depois, foram soltos mediante o pagamento de uma fiança de 50 dólares, sob ordens de apresentarem-se à polícia duas vezes por semana.
Em 1º de março, outras 14 ativistas da WOZA foram presas em Bulawayo ao participarem de encontros para debater questões sociais. Elas foram soltas no mesmo dia, sem acusações.
Top of pageO governo fracassou em proporcionar educação aos milhares de crianças atingidas pelos despejos forçados em massa ocorridos em 2005, conhecidos como Operação Murambatsvina. Em Hopley e Hatcliffe Extension, dois assentamentos criados pelo governo para realojar as vítimas dos despejos em Harare, mais de 2 mil crianças frequentavam escolas primárias não registradas, em instalações inadequadas, sem professores capacitados ou material escolar. Mais de seis anos após os despejos forçados, a maioria das vítimas teve sua condição de pobreza agravada devido à incapacidade do governo de encontrar soluções efetivas para a situação.
Top of pageProsseguiu a perseguição com base na orientação sexual das pessoas.
Em outubro, em uma entrevista à rede BBC, Morgan Tsvangirai afirmou apoiar os direitos dos homossexuais. Ele foi criticado pelos meios de comunicação sob controle estatal, que tentaram politizar a declaração e incitar o ódio contra homossexuais.
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